Clube
de História 7, Porto Editora
"A mulher ocupa uma posição de inferioridade na sociedade
muçulmana. Quando falamos na mulher muçulmana, dois símbolos
logo nos ocorrem: o harém e o véu. Estes sinais distintivos das
mulheres muçulmanas sugerem a sua subordinação ao homem,
apesar da igualdade espiritual das mulheres estar expressa no Corão:
"...e os homens que se lembram constantemente de Deus, tal como as mulheres
que o fazem, para todos eles Deus preparou o perdão e uma enorme recompensa"
(33:35)
A subordinação da mulher é demonstrada e justificada pela
lei, costumes e tradições da Civilização Muçulmana,
dizendo mesmo que há apenas um reconhecimento dos diferentes papéis
dos dois sexos e não uma inferioridade efectiva.
Assim, as marcas jurídicas da inferioridade da mulher são as seguintes:
- a mulher só pode ter um marido, ao contrário do homem, que pode
ter quatro mulheres ao mesmo tempo;
- a mulher só pode casar com um muçulmano, ao contrário
do homem, que pode casar com uma mulher de outra religião;
- a mulher apenas pode pedir o divórcio em casos extremos, ficando a
custódia dos seus filhos para o pai, e o testemunho do homem tem o dobro
do valor do da mulher;
- a herança da mulher é duas vezes inferior à do homem.
- A maioria das mulheres vive na reclusão, poucas foram as que tiveram
papéis activos em questões públicas, embora actualmente
haja uma crescente liberalização do papel das mulheres fora de
casa que começou sob a influência ocidental. Em alguns países,
porém, verifica-se um retrocesso aos valores islãmicos, através
do fundamentalismo islãmico."
A mulher árabe tem uma prática de vida completamente diferente
da mulher ocidental, tendo de obedecer a regras muito estritas. No entanto,
a forma de viver das mulheres não é igual em todo o mundo árabe.
Em alguns países árabes as mulheres vivem enjauladas e maltratadas
e noutros alcançaram a sua emancipação.
Apresentámos aqui dois exemplos contrastantes: a mulher afegã em
que a “desobediência equivale à morte” e a mulher
do Sara emancipada.
Algumas das principais regras que a mulher afegã tem de obedecer durante
o regime da milícia islâmica talibã:
1. É absolutamente proibido às mulheres qualquer tipo de trabalho
fora de casa, incluindo professoras, médicas, enfermeiras, engenheiras,
etc.
2. É proibido às mulheres andar nas ruas sem a companhia de um “nmahram” (pai,
irmão ou marido).
3. É proibido falar com vendedores homens.
4. É proibido ser tratada por médicos homens, mesmo que em risco
de vida.
5. É proibido o estudo em escolas, universidades ou qualquer outra instituição
educacional.
6. É obrigatório o uso do véu completo (“burca”)
que cobre a mulher dos pés à cabeça.
7. É permitido chicotear, bater ou agredir verbalmente as mulheres que
não usarem as roupas adequadas (“burca”) ou que desobedeçam
a uma ordem talibã.
8. É permitido chicotear mulheres em público se não estiverem
com os calcanhares cobertos.
9. É permitido atirar pedras publicamente a mulheres que tenham tido
sexo fora do casamento, ou que sejam suspeitas de tal.
10. É proibido qualquer tipo de maquilhagem (foram cortados os dedos
a muitas mulheres por pintarem as unhas).
11. É proibido falar ou apertar as mãos de estranhos.
12. É proibido à mulher rir alto (nenhum estranho pode sequer
ouvir a voz da mulher).
13. É proibido usar saltos altos que possam produzir sons enquanto andam,
já que é proibido a qualquer homem ouvir os passos de uma mulher.
14. A mulher não pode usar táxi sem a companhia de um “mahram”.
15. É proibida a presença de mulheres em rádios, televisão
ou qualquer outro meio de comunicação.
16. É proibido às mulheres qualquer tipo de desporto ou mesmo
entrar em clubes e locais desportivos.
17. É proibido andar de bicicleta ou motocicleta, mesmo com seus “maharams”.
18. É proibido o uso de roupas que sejam coloridas, ou seja, “que
tenham cores sexualmente atraentes”.
19. . Os transportes públicos são divididos em dois tipos, para
homens e mulheres. Os dois não podem viajar no mesmo.
20. É proibida a participação de mulheres em festividades.
21. É proibido o uso de calças compridas mesmo debaixo do véu.
22. As mulheres estão proibidas de lavar roupas nos rios ou locais públicos.
23. . As mulheres não se podem deixar fotografar ou filmar.
24. Todos os lugares com a palavra “mulher” devem ser mudados,
por exemplo : O Jardim da Mulher deve passar a chamar Jardim da Primavera.
25. Fotografias de mulheres não podem ser impressas em jornais, livros
ou revistas ou penduradas em casas e lojas.
26. As mulheres são proibidas de aparecer nas varandas das suas casas.
27. O testemunho de uma mulher vale metade do testemunho masculino.
28. Todas as janelas devem ser pintadas de modo a que as mulheres não
sejam vistas dentro de casa por quem estiver fora.
29. É proibido às mulheres cantar.
30. É proibido a homens e mulheres ouvir música.
31. Os alfaiates são proibidos de costurar roupas para mulheres.
32. É completamente proibido assistir a filmes, televisão, ou
vídeo.
33. As mulheres são proibidas de usar as casas-de-banho públicas
(a maioria não as tem em casa).
Fonte: Revista Notícias Magazine, 21 de Outubro de 2001.
“
Mulheres do Sara – árabes e emancipadas”
No deserto, na Argélia, elas mostram como o Islão não
tem que prender as mulheres. Quando os homens partiram para a guerra, elas
construíram campos, hoje quase cidades e tomaram conta da saúde,
cultura, desporto, milícias, educação. "Só havia
mulheres, nada mais". Quando eles regressaram respeitaram a liberdade
delas. Vivem numa luta há 25 anos, trabalham, cuidam dos filhos e da
casa, transportam água, são enfermeiras, professoras e deputadas,
ministras. E sabem rir.
Há 25 anos Espanha assinava um acordo, deixando o Sara Ocidental, uma
antiga colónia, nas mãos de Marrocos, que rapidamente ocupou
as terras através do que ficou conhecido como a “marcha verde”.
Muitos sarauis foram obrigados a deixar as suas casas, próximo do mar.
E fogem pelo deserto até Tindouf, na Argélia (...). Próximo
de Tindouf, as mulheres começam a construir os acampamentos de refugiados,
que hoje quase parecem cidades, enquanto os homens vão para a frente
lutar. (...)
“
Enquanto os homens estavam na frente a lutar, as mulheres ficaram à frete
de tudo: da saúde, cultura, desporto, milícias, educação...
só havia mulheres, nada mais.” Explica-nos Magbula Hafdala Ali,
uma jovem de 26 anos (...). São também estas mulheres que cuidam
da casa, dos filhos, transportam a água e os cereais que chegam das
ajudas humanitárias. (...)
“
A primeira imagem que se tem da mulher árabe é a da mulher do
Afeganistão”, afirma a ministra da cultura do Sara Ocidental,
Mariam Hmada. Mas no deserto do Sara encontram-se estas mulheres árabes
que iniciaram a sua emancipação há 25 anos por causa de
uma guerra. Hoje as mulheres sarauis já alcançaram muitas liberdades
que são vistas como um privilégio pelas outras mulheres árabes
(...)”.
“
Em quase todos os países árabes, a mulher não pode viajar
sozinha, tem de viajar com o marido ou com uma pessoa, como se fosse uma mochila”,
salienta Mariam Hmada, que chegou à entrevista que tínhamos marcada
ao volante do seu próprio jipe. Uma grande parte das jovens sarauis
vão estudar no estrangeiro, a Cuba, Espanha, Líbia ou Rússia,
por exemplo. Em 1975, na União Nacional de Mulheres Sarauis havia apenas
uma mulher com estudos, hoje são 80 %. (...)
“
Em muitos países árabes a mulher não pode votar, e se
não pode votar não pode ser candidata”, refere Mariam Hmada.
No Sara existem sete deputadas para cinquenta e um deputados e para apresentar
uma moção de censura, bastam cinco votos porque, segundo a ministra
da Cultura, os sarauis “têm confiança em nós”.
E acrescenta que “a lei diz que se os candidatos não são
todos mulheres, pelo menos metade tem de ser.” (...)
Não houve um único caso em que depois do divórcio o homem
tenha levado os filhos, no Sara Ocidental. (...)
Na maioria dos países árabes, uma mulher divorciada não
tem grandes oportunidades de voltar a casar. Mas, segundo Mariam Hmada, no
Sara é “ao contrário, quando uma mulher se divorcia tem
mais oportunidades de se casar, porque os homens apreciam nela uma experiência.” Ainda
que existam casamentos por conveniência, não é permitido
casar uma mulher sem o seu consentimento, segundo as leis. (...)
Acrescenta também: “Aqui um homem nunca pode bater a uma mulher
porque a sociedade o condena. E eu nunca ouvi de um caso de maus tratos desde
que tenho este cargo”.
Adaptado de artigo da Revista Pública, 7 de Outubro de
2001.
"A primeira mulher no Governo de Omã"
Fawziya bint Naser bin Juma AI Farsi é uma mulher de se lhe tirar o
chapéu. O seu sorriso é querido e modesto, mas o seu currículo
longe disso. Uma especialização em Educação na Universidade
da Flórida, nos EUA, um mestrado em Educação tirado na
Universidade de Edinburgo, na Escócia, e um doutoramento em Desenvolvimento
dos Recursos Humanos da Universidade britânica de Exeter. Ao todo, quase
nove anos fora de Omã, que no regresso resultaram na nomeação,
em 1997, por decreto real, para secretária de Estado da Educação.(...)
Notícias Magazine - Em 1979 havia três escolas primárias
em Omã. Hoje há...
Fawzyia Farsi - Nesse tempo havia três escolas públicas,
porque desde sempre existem as escolas do Corão, onde se ensinavam os
rudimentos da aritmética, da leitura e da escrita, para que as pessoas
pudessem ler o livro sagrado. Neste momento, temos 98 por cento das crianças
e dos jovens, cerca de meio milhão de estudantes, nas mil escolas espalhadas
por todo o país. E não há qualquer discriminação
das raparigas - 49% do total dos nossos estudantes são raparigas.
NM - E o regresso a Muscat...
FF - Quando regressei a Omã tinha evoluído imenso, graças
ao papel em favor das mulheres desempenhado por Sua Majestade. Acredite que
o sucesso das mulheres neste país, tão diferente de muitos outros
países árabes, se deve a ele, à sua decisão de não
deixar na margem mais de metade da população...
NM - Mudança radical em tempo relativamente curto. Como é
que os homens reagem a esta emancipação?
FF - Os homens aceitam e encorajam, a sério. Nada pode ficar igual
depois de, por exemplo, as escolas se estarem a tomar progressivamente mistas
- já há 101 escolas que o são. A competição
entre todos tem levado a uma melhoria dos desempenhos escolares, tanto de rapazes
como de raparigas. Hoje, elas estão já em maioria na Universidade.
(...)
NM - Não tem por isso medo da mudança?
FF - Acreditamos que o equilíbrio é possível.
Face à globalização, os valores nacionais tendem a revelar-se
valiosos aos olhos das pessoas. O Japão é um caso paradigmático:
levantou-se da ruína, tem um progresso tecnológico fabuloso, mas
a língua mantém-se, os japoneses mantêm-se japoneses.
Sabemos que o Ocidente tem de nós muitas vezes uma imagem errada. Queremos
que o Islão seja visto como ele é. Queremos mudar e progredir.
Omã é um país árabe e islâmico, mas quer fazer
parte do mapa!
Adaptado de Notícias Magazine, nº 511.
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