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Os resultados do inquérito realizado em Março com os meus alunos
da Universidade Católica por amostra de conveniência junto de 1086
jovens dos 15 aos 34 anos mostraram que na vida dos jovens há mais coisas
para fazer para além do contacto com os media; que TV e Internet estão
quase a par no topo dos tempos livres; que a leitura tem um lugar na vida quotidiana,
embora mais a leitura "superficial" de jornais e revistas do que a
"leitura profunda" de livros; que os jovens colocam os noticiários
no topo dos géneros televisivos mais importantes para si.
Apresento hoje outros resultados e conclusões do inquérito.
A TV está em todo o lado dentro e fora de casa. Onde a vêem
os jovens portugueses?
Em casa: na sala de estar (88,6%), no seu quarto (63,8%), na cozinha (43,7%).
Noutro estudo do género que realizei em 2004 com a colaboração
de professores do ensino público do distrito de Portalegre e grosso modo
da Grande Lisboa junto de estudantes até ao 12º ano constatou-se
que a invasão da TV atinge todo o tipo de divisões da casa. Ainda
no lar, os jovens de 2008 disseram ver televisão habitualmente no computador
(29,0%), em casa de familiares (78,9%) e de amigos (67,3%).
Costumo ver TV... %
Na sala 88,6
Em casa de familiares 78,9
No quarto 63,8
Em casa de amigos 67,3
Na cozinha 43,7
Em estabelecimentos públicos 30,8
No computador 29,0
Nas estações dos transportes 14,4
No telemóvel 4,7
Vejo canal da empresa ou universidade 10,1
Fora de casa, os jovens vêem TV em estabelecimentos públicos (30,8%),
estações dos transportes (14,4%), vendo ainda o canal próprio
da empresa ou universidade (10,1%). Uma nova forma de ver TV desponta neste
inquérito: através do telemóvel (4,7%). Tal como a Internet,
a TV chegou ao bolso do indivíduo.
Esta versatilidade revela a inscrição da TV na vida quotidiana,
quer por escolha própria, quer por imposição do meio. Os
seus usos sociais são variados. Nenhum outro media alcança esta
poderosa força social da TV. Num inquérito que realizei em 2002,
só um terço dos 1329 inquiridos disse que nunca ligava a TV mal
chegava a casa e que nunca a mantinha ligada sem lhe estar a prestar atenção.
Neste inquérito de 2008 perguntei aos jovens se deixam de fazer alguma
coisa para verem TV, isto é, para aferir o poder de atracção
do media: 40,7% disseram que sim.
Além de questionar sobre os tempos livres, perguntei especificamente
quais os media actualmente mais importantes na vida dos jovens. Nos dois primeiros
lugares surgiram os mesmos que se destacavam na ocupação dos tempos
livres a seguir a sair com amigos: televisão (76,8%) e Internet (72,7%).
O telemóvel surge em terceiro lugar (39%). A identidade e a sociabilidade
de uma parte dos jovens passa pelo telemóvel. É mais nomeado do
que os jornais (30,7%), a rádio (27,0%) e os outros media incluídos
na pergunta. Os livros (11,6%) aparecem acima das revistas (10,8%) e do cinema
(8,8%). Este aparecera como algum destaque nas escolhas dos tempos livres (23,7%)
e como um dos géneros preferidos da TV (54,1%). Verifica-se assim uma
versatilidade social semelhante à da TV, pois "ir ao cinema",
um fenómeno juvenil inscrito com muita força na vida social dos
jovens há mais de meio século, é em boa parte mais importante
do que o próprio "cinema", que se pode ver na televisão
em directo ou pelo DVD. Os media só de leitura (livros, jornais, revistas)
somam 53,1% das escolhas, menos de metade dos 122,6% de media exclusivamente
áudio e audiovisuais (TV, rádio, cinema, iPod, consola, DVD, CD).
Os media mais
Em 1.º, 2.º importantes e 3.º lugar para mim (%)
Televisão 76,8
Internet 72,7
Telemóvel 39,0
Jornais 30,7
Rádio 27,0
Livros 11,6
Revistas 10,8
Cinema 8,8
iPod 8,5
Consola 4,2
DVD 4,1
CD 2,0
Ainda quanto à televisão e à Internet: outras respostas
apontam para uma curva descendente da TV e uma curva ascendente da web enquanto
se é jovem. Dois terços (64,9%) dos jovens concordaram totalmente
ou bastante que estão mais tempo na Internet do que à frente do
televisor. Noutra questão, 67,2% concordaram totalmente ou bastante que
vêem hoje menos TV do que há alguns anos. Este valor é consistente
com um resultado dum estudo da Fundación BBVA divulgado esta semana em
Espanha: 27% dos espanhóis disseram que vêem menos TV desde que
usa a Internet. Mas, de novo, é preciso considerar quão resistente
é a televisão: no meu inquérito, 81,3% dos jovens concordaram
pouco ou nada que a TV esteja ultrapassada, que seja, uma perda de tempo. Acontece
que os jovens a usam como querem, acham-se no comando: 84,4% disseram ser totalmente
ou bastante selectivos nos programas que vêem.
Estes resultados indicam como as teorias da comunicação a respeito
da relação entre os indivíduos e os media não se
anulam entre si: os jovens usam os media a seu bel-prazer, para gratificação
pessoal e social, usam-nos também por pressão social, e "são
usados" por eles no sentido em que as mensagens dos media contribuem fortemente
para o seu capital cultural, moldando em parte as suas competências culturais
sem que eles dêem por isso. Isso não significa, porém, a
aceitação pura e simples das mensagens, dado que todos as incorporamos
e a elas resistimos em maior ou menor grau. O inquérito permite verificá-lo
na relação dos jovens portugueses com os noticiários e
as notícias televisivas.
Recordo: os telenoticiários são a principal fonte de informação
declarada pelos jovens portugueses, mas mais de metade desconfia das notícias
e sete em dez acham os noticiários sensacionalistas. As notícias
televisivas não correspondem aos interesses informativos de metade dos
jovens. Não é de admirar: os noticiários portugueses, apesar
de "generalistas", são feitos em primeiro lugar para o maior
grupo disponível para os ver, e esse grupo é, como a todas as
horas, o dos mais velhos. O peso dos grupos etários com mais de 64 anos
na audimetria dos noticiários é fortíssimo: por exemplo,
na quinta-feira representaram 27% da audiência às 20h00 e 42% às
13h00. Assim, tal como a política dos velhos partidos, os noticiários
não falam aos jovens.
Os números deste inquérito mostram que os jovens vêem os
noticiários, mas opõem-se-lhes em diversos aspectos. Também
se lhes perguntou se acham os noticiários da RTP, SIC e TVI muito longos:
um quarto concordou totalmente (25,1%) e mais um terço (33,1%) concordou
bastante: somados, são mais de metade achando os noticiários longos
(58,2%). Quando interrogados se gostam mais de ver notícias curtas, os
jovens foram taxativos: três em quatro disseram que sim (74,7%). São
menos de metade os que concordam totalmente ou bastante com a afirmação
de que para se ficar bem informado tem que se fazer zapping (39,0%), o que é
um sinal de acomodação ou, pelo contrário, de autoconfiança
na capacidade de discernir o que é de desconfiar no noticiário
escolhido.
Concordo (%)
Noticiários da RTP, SIC e TVI
São muito longos 58,2
Prefiro ver notícias curtas 74,7
Para se ficar bem informado, tem que se fazer zapping 39,0
Eduardo Cintra Torres, Público, 10-05-2008
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