A legislação sobre planeamento familiar para jovens é
boa, muito boa mesmo, mas a prática deixa bastante a desejar, a crer
no estudo ontem divulgado pela associação de defesa de consumidores
Deco.
Problema número um: mais de metade dos 85 centros de saúde, hospitais
e delegações do Instituto Português da Juventude visitados
fecharam as portas às raparigas (entre os 15 e os 20 anos) que os procuraram
na tentativa de aceder a uma consulta de planeamento familiar. Problema número
dois: em 14 dos serviços as adolescentes saíram de mãos
a abanar, na maior parte das vezes porque não havia contraceptivos. Problema
número três: em vários centros de saúde, os funcionários
da recepção falavam alto, deixando as jovens embaraçadas.
"O estudo revela uma das maiores debilidades que existem actualmente nos
cuidados de saúde sexual e reprodutiva: o acesso de jovens a este tipo
de cuidados", lamenta Duarte Vilar, director executivo da Associação
para o Planeamento da Família (APF).
A lei diz que os centros de saúde devem atender os jovens em consultas
de planeamento familiar mesmo que estes não estejam ali inscritos. O
que faz sentido porque nesta faixa etária a privacidade e a confidencialidade
são fundamentais. Mas a realidade constatada no terreno pelas colaboradoras
da Deco (que efectuaram visitas anónimas) demonstra que "há
um grande abismo entre a teoria e a prática", refere a APF. A agravar
só em 12 dos 49 casos foram indicadas alternativas de atendimento.
Esta "falta de abertura dos serviços" contraria as informações
das subregiões de saúde, às quais a Deco enviou um questionário.
Segundo estas estruturas, o planeamento familiar está bem organizado
em todos os centros de saúde, que, na maioria, seguem as recomendações
da Direcção-Geral da Saúde (DGS).
O estudo, que decorreu em Fevereiro e Março passados, demonstra ainda
que são significativas as assimetrias regionais. Nas grandes cidades,
como Lisboa, Porto e Coimbra, as jovens conseguiram ter acesso com relativa
facilidade a informações e contraceptivos. Mas houve zonas, como
Évora, Viseu e Faro, onde os poucos serviços existentes não
deram resposta.
"É evidente que é preciso cumprir a lei e as instituições
deram a resposta que não deveriam ter dado", admite Ana Henriques,
consultora da subregião de Lisboa e da DGS para a área de planemento
familiar. Considerando embora que pode haver "circunstâncias atenuantes"
e que não não se sabe como foram colocadas as questões
da Deco, a especialista frisa que os jovens não têm que ser da
área de influência dos centros de saúde e que lhes bastaria
fazer uma inscrição provisória para serem atendidos. Mas
acredita que não será necessária uma intervenção
do Ministério da Saúde (MS): "As administrações
regionais e as subregiões de saúde podem chamar a atenção,
mas acredito que os próprios centros de saúde vão ter consciência
de que não estão a cumprir a lei".
Duarte Vilar defende, ao invés, que o MS deve fazer um ponto da situação.
"E identificar, zona a zona, concelho a concelho, a existência de
serviços para jovens e as dificuldades que existem no acesso." Ainda
assim, nota que a evolução ao longo dos últimos anos é
positiva.
Quando conseguiram entrar nos centros de saúde, as jovens foram bem
atendidas. Das 36 consultas analisadas pela Deco, apenas quatro mereceram nota
negativa. Nos centros de saúde de Arnaldo Sampaio (Leiria) e no dos Olivais
(Lisboa) esqueceram-se de falar do preservativo.
Alexandra Campos, Público, 29.05.2007 |