Vítor Ferreira é um investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e coordenador do estudo "A condição Juvenil Portuguesa na Viragem do Milénio". Algumas das conclusões foram publicadas no Jornal de Notícias em 3 de Dezembro de 2006
1 - Entrevista com Vítor Ferreira
2 - Ascensão das mulheres marca viragem do milénio
3 - Desemprego quadruplicou entre os mais habilitados
4 - Tuberculose pesa 50% nas doenças
5 - Estrangeiros atenuam quebra demográfica
1 - Entrevista com Vítor Ferreira
Coordenou o estudo "A condição Juvenil Portuguesa na Viragem do Milénio”, hoje oficialmente apresentado. Investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, prepara a tese "Mobilizações 'Radicais' do Corpo em Contextos Juvenis".
A fecundidade fora do casamento aumentou, mas Vítor Ferreira pega neste exemplo para mostrar como as estatísticas podem ser enganadoras. O crescimento das uniões de facto é a explicação e não a típica gravidez adolescente.
JN|A relação entre sexos transformou-se bastante no espaço de uma década?
Vítor Ferreira| Esse é um dos dados que sobressai. Não chegou a haver uma inversão, mas a tendência é de aproximação em diversas áreas. Mesmo em alguns indicadores de condutas de risco (fumar, bebidas alcoólicas, entre outras) e saúde, que eram maioritariamente masculinas, estão agora mais presentes nas mulheres. Em matéria de educação, há nitidamente uma feminização dos graus superiores do Ensino. O abandono escolar é hoje muito mais masculinizado e a superioridade das mulheres é notória na universidade.
As mulheres divorciam-se menos?
Sim, mas isso relaciona-se com a própria faixa etária que foi objecto de estudo. Os homens tendem a casar mais tarde e com mulheres mais novas. O fenómeno do divórcio jovem apanha mais homens do que mulheres.
Concorda que a quadruplicação do desemprego jovem acaba por não surpreender?
As trajectórias estão mais complexificadas. Esse fenómeno do desemprego indica isso mesmo. Há alguns anos, as trajectórias juvenis tinham alguns rituais e alguns acontecimentos charneira. O emprego já não é um dado adquirido e a própria vivência conjugal também não. As próprias uniões de facto duplicaram em 10 anos, apesar de continuarem minoritárias.
E os divórcios em casamentos católicos também registaram um aumento.
Exactamente. Mas como há mais casamentos católicos, é natural que o número de divórcios também seja superior nesse tipo de uniões.
A alta incidência de criminalidade juvenil surpreende?
Os jovens são hoje mais objecto de registo criminal, isto é, a fonte policial está mais atenta à criminalidade dos mais novos. Estão mais dentro do sistema judicial, mais como arguidos e condenados e não tanto como parte da população prisional, onde se encontram representados em cerca de 15%. São maioritariamente crimes contra o património e contra a sociedade.
No capítulo da sinistralidade, tudo evolui no bom sentido?
A sinistralidade rodoviária está entre as principais causas de morte dos jovens, mas tem havido uma descida, talvez devido a uma maior consciencalização. Poderá haver algum efeito produzido pelas campanhas de sensibilização.
O mesmo se poderá dizer da Sida?
Sim. A Sida está a crescer junto de heterossexuais, mas o facto é que há decréscimo da doença entre os jovens.
Não ficou surpreendido com o peso de 71% da tuberculose nas camadas jovens?
Fiquei surpreendido. A tuberculose tem aumentado substancialmente entre os jovens. Verificamos no inquérito nacional de saúde que a frequência de consultas médicas e de exames entre os jovens é muito escassa, embora isso seja geral. Como não há muita vigilância e há a presunção exagerada de que o corpo jovem é mais imune…
Por que razão cresceu a fecundidade fora do casamento?
Associa-se muitas vezes a fecundidade fora do casamento à típica gravidez adolescente, mas a explicação está mais no aumento da união de facto.
Pedro Araújo Extracto de entrevista JN 03-12-06
2 - Ascensão das mulheres marca viragem do milénio
Os jovens (15-29 anos) passaram a constituir um quinto da população, quando há uma década eram um quarto. A taxa de desemprego quadruplicou, mas a sua presença na universidade duplicou. Casam-se e têm filhos mais tarde, divorciam-se mais rapidamente e a união de facto ganha terreno. A tuberculose atinge os 71% entre as doenças e os condenados triplicaram em 14 anos. Hoje, na Universidade do Minho, responsáveis governamentais marcarão presença na apresentação do estudo "A Condição Juvenil Portuguesa na Viragem do Milénio" e deverão anunciar medidas.
Vítor Ferreira, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e coordenador do estudo, concorda que a "pequena revolução feminina" sobressai da recolha estatística dos anos 1990 a 2005. Não havendo novidades absolutas, o manancial de dados de sete áreas (demografia, família, educação, emprego e desemprego, saúde e condutas de risco, sinistralidade, justiça) acaba por provar que a igualdade de sexos é quase uma realidade.
As raparigas tendem a permanecer por mais tempo no sistema educativo, sobretudo nos níveis mais elevados. Elas tendem a casar-se e assumir a maternidade mais cedo. Há mais empresárias e quadros de topo femininos.
Os rapazes, pelo contrário, tendem a abandonar precocemente os estudos, frequentemente sem concluir o 9.º ano de escolaridade. Logo, eles entram mais cedo no mundo do trabalho e encontram-se, segundo o estudo, "sobrerepresentados em fenómenos de delinquência, criminalidade, sinistralidade e condutas de risco, reflectindo-se, por exemplo, nas taxas de óbitos". Independentemente do género, a verdade é que os jovens estão diferentes. Já não podem contar com um emprego estável nem com um casamento duradouro. O retrato das habilitações é ainda desanimador - 35% dos jovens abandonam estudos sem o 9.º ano; 34% de chumbos no Secundário; 50% dos empregados (15-29 anos) não têm a escolaridade mínima obrigatória.
A Sida parece relativamente controlada, óbitos por ingestão de drogas diminuem e a sinistralidade - rodoviária, laboral, doméstica e no lazer - tende a decrescer. O consumos de tabaco e bebidas alcoólicas mantém-se estável.
Pedro Araújo JN 03-12-06
3 - Desemprego quadruplicou entre os mais habilitados
Os autores do estudo sobre a condição juvenil consideram assinalável a quadruplicação do peso relativo dos jovens desempregados com formação superior no espaço de 14 anos (5,1% em 1992, para 20,6% em 2005). De notar é igualmente a triplicação (1991-2001) dos jovens empregados com cursos universitários.
Destaca-se também no estudo a quebra acentuada do peso dos jovens desempregados apenas com o 1.º ciclo do Ensino Básico (20,3% em 1992, para 6,6% em 2005).
Em 2004, a taxa de desemprego era de 21,5% no escalão 15-19 anos, 14,8% nos 20-24 anos e 10,9% nos jovens entre os 25 e 29 anos de idade. Ou seja, à medida que se avança na idade menor é a taxa desemprego.
No grupo etário dos 15 aos 19 anos, por exemplo, a taxa de actividade desceu, nos últimos quinze anos, de 45,5% para 18%, tendo havido simultaneamente um aumento exponencial da condição de estudante. Por sua vez, dentro da população activa, são os mais jovens, sobretudo do sexo feminino, os mais atingidos por situações de desemprego, sendo que mais de 50% destes contaram com o suporte familiar como principal meio de vida e apenas 21% com o subsídio de desemprego.
Em termos de indicadores de precariedade das inserções laborais juvenis, nota-se nos últimos quinze anos um acentuar do desemprego de circulação entre os jovens, bem como o prolongamento do tempo entre situações de desemprego.
As saídas dos jovens da casa parental acontecem cada vez mais tardiamente. A proporção de jovens a cargo da família subiu de 59,6% em 1991 para 76,3% em 2001, aumento que incidiu sobretudo no escalão etário mais novo, não se deixando de reflectir, contudo, nas restantes faixas etárias.
Pedro Araújo JN 03-12-06
4 - Tuberculose pesa 50% nas doenças
Há uma clara tendência de crescimento dos casos notificados de tuberculose desde 1997, atingindo 71% dos casos notificados de doenças de declaração obrigatória, em 2004, entre os jovens portugueses com idades compreendidas entre os 15 e 34 anos.
As excepções à presença maioritária de casos de tuberculose prendem-se com situações pontuais de papeira. Em termos médios, entre 1990 e 2004, a tuberculose representa 38,1% dos casos notificados de doenças de declaração obrigatória para o total da população, independentemente da idade, e 50,8% entre os jovens dos 15 aos 34 anos de idade.
Em declarações ao JN, Vítor Ferreira avançou com uma possível explicação para a incidência de tuberculose nas camadas mais jovens - ausência das consultas médicas e presunção exagerada quanto à imunidade dos organismos jovens. Recorrendo ao Inquérito Nacional de Saúde, os autores do estudo constataram que os jovens são os menos frequentadores das consultas médicas (cerca de 60% não recorria aos serviços de saúde em 1998/99).
O VIH tem decrescido entre os jovens (15-29 anos), representando cerca de 29,5% na média anual entre 1990 e 2005. Neste espaço de tempo, foram notificados 2869 casos com homens e 796 registos com mulheres.
Pedro Araújo JN 03-12-06
5 - Estrangeiros atenuam quebra demográfica
Em 1991, residiam em Portugal 35.176 jovens estrangeiros. Em 2004, as estimativas provisórias apontavam para a existência de 80.300. Ou seja, em pouco mais de uma década aquele estracto da população mais do que duplicou, atenuando assim a quebra demográfica das camadas etárias mais novas.
Estima-se que entre 1991 e 2004 a população jovem (15-29 anos) tenha decrescido cerca de 8%, deixando de constituir um quarto da população portuguesa residente para passar a representar apenas um quinto. Em 1991, Portugal tinha 2.336.396 jovens, passando, em 2004, para 2.152.796.
Estamos perante um indicador de envelhecimento. O fenómeno resulta da diminuição de nascimentos e do aumento de esperança de vida, manifestando-se no estreitamento da pirâmide etária na base e no alargamento das faixas relativas à população adulta. Os mais novos estão sobretudo concentrados nos distritos de Lisboa e do Porto.
De acordo com o estudo, a quebra só não tem sido mais acentuada devido às compensações demográficas por via dos fluxos imigratórios para Portugal, em muito engrossados por população dentro destes escalões etários mais baixos, sobretudo entre 25 e 29 anos.
A presença de jovens estrangeiros a residir em Portugal aumentou quase 130% na última década, continuando em força os fluxos provenientes dos Países Africanos de Expressão Oficial Portuguesa (que constituem 48% do total de jovens estrangeiros a residir em Portugal em 2004), somados agora aos fluxos intensivos provenientes da Europa (sobretudo dos países do Leste europeu) e do Brasil.
Regressando ao panorma geral da população jovem residente em Portugal, constata-se que existem mais homens do que mulheres. O fenómeno constata-se desde o nascimento até ao início da idade adulta e deve-se ao facto de nascerem mais elementos masculinos do que femininos. A partir dessa altura da vida, a tendência inverte-se porque os homens começam a morrer mais cedo.
O estudo constata igualmente que os jovens estão mais velhos. Isto é, a faixa etária dos 25-29 anos já tem mais efectivos do que todas as outras a partir dos 15 anos de idade. Pedro Araújo
A partir dos anos 80, o divórcio em casamentos católicos começou a ter mais peso que os divórcios em casamentos civis. Por exemplo, em 2004, 58,7% dos divórcios efectuados pelos homens até aos 29 anos aconteceram em casamentos católicos. As taxas de nupcialidade católica, entre 1990 e 2004, passam de 7‰ para 2,2‰ na faixa etária dos 15 aos 19 anos,
Embora minoritária relativamente ao casamento, a união de facto duplicou na última década - de 2,2%, em 1991, para 4,4%, em 2001. De 1990 para 2004, a fecundidade fora do casamento aumentou 9,3% entre as mães entre 25 e 29 anos de idade
Pedro Araújo JN 03-12-06 |