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Dossiers Temáticos | Adolescência
Ser mãe na adolescência

Muitas das adolescentes que hoje engravidam já tinham abandonado a escola, mas também ainda não agarraram um emprego seguro, afiançam as especialistas que acompanham mães muito jovens. A ignorância total sobre os métodos contraceptivos já pouco parece existir. "Muitas delas dizem "Não usava nada, se acontecesse, acontecia"", relata uma técnica.

Paula Alves chumbou três anos seguidos. Quando chegava ao portão da escola, perguntava-se: "O que é que venho aqui fazer?". De manhã, era costume discutir com o namorado porque queria deixar de ir às aulas. E deixou mesmo. Pouco tempo depois ficou grávida. Tinha 18 anos e o 9.º ano incompleto. "Nem tinha estudos, nem tinha trabalho", reconhece hoje, arrependida do abandono escolar precoce.
A gravidez resultou de um desleixo: a carteirinha da pílula acabou, mas a compra de outra caixa era adiada todos os dias. Paula lembra-se dos avisos do namorado: "Ele dizia-me: "Paula, tu andas a brincar com isto!"".

Dois anos depois do nascimento da filha, Paula está a fazer um estágio remunerado como camareira num hotel em Lisboa, no âmbito do projecto Humanuscam (ver caixa). O dinheiro que recebe permite ajudar a sustentar a casa, até porque o namorado está desempregado. Até agora o único trabalho que tinha conseguido era fazer limpezas em escritórios.

Paula parece encaixar no perfil que os especialistas consideram ser o de boa parte das mães adolescentes de hoje em dia: quando engravidam já abandonaram a escola, mas ainda não têm um emprego seguro.

Em Marvila, Lisboa, onde há um projecto de prevenção e acompanhamento de gravidez na adolescência, muitas das raparigas partilham a mesma vivência: abandonam a escola primeiro e engravidam depois.
"O ser mãe acaba por ser um projecto de vida", constata Sónia Ventura, psicóloga da Associação de Planeamento Familiar (APF), que trabalha no programa de Marvila e já esteve envolvida noutro semelhante em Casal de Cambra, Sintra, que acompanhou 110 jovens.

Distraem-se com a contracepção
Os números de jovens grávidas atendidas na consulta especializada da Maternidade de Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa, em 2005 - um total de 172, com uma média de 16 anos de idade - reflectem o perfil traçado pelas técnicas. Mais de metade (51 por cento) das raparigas registadas abandonaram a escola antes da gravidez e 45 por cento não tinha qualquer ocupação profissional. A grande maioria (70 por cento) não completou o ensino básico.

Fátima Xarep, coordenadora do serviço social da MAC, nota que as jovens acompanhadas na instituição têm cada vez menos estudos. "O nível de escolaridade tinha vindo a aumentar, mas há dois anos estamos a verificar que há uma regressão aos números de 1989 [data de início da consulta]: no ano passado tivemos seis analfabetas completas, o que é muito na nossa amostra", diz.

A ignorância total sobre os métodos contraceptivos já pouco parece existir entre as jovens. Sónia Ventura diz que algumas gravidezes na adolescência são planeadas, ainda que inconscientemente: "Muitas delas dizem: "Não usava nada, se acontecesse, acontecia"". São sobretudo jovens que vivem em meios economicamente desfavorecidos, que namoram com rapazes um pouco mais velhos, ansiosos por constituir família, e que conhecem outros casos de gravidezes precoces entre amigas ou parentes. "Sentem que têm ascensão social dentro da família", refere a técnica da APF. Depois, diz, "quando são mães deparam-se com dificuldades inesperadas".

Maria de Jesus Correia, médica da consulta de grávidas adolescentes da MAC, partilha da opinião de que por vezes existe alguma ambiguidade na vontade de ter um filho. "Algumas distraem-se com a contracepção por várias razões, que podem ir desde confirmação de feminilidade até a chamadas de atenção da família", afirma.

Sónia Ventura nota também que ainda persistem muitos mitos. "Algumas dizem que engravidaram com a pílula, mas quando tentamos perceber melhor vemos que há enormes falhas: esquecem-se de tomar e depois tomam três de seguida", relata. Maria de Jesus Correia sublinha que, em muitos casos, há mau uso dos métodos contraceptivos relacionado com mitos errados: não se engravida na primeira vez que se tem relações sexuais, enquanto se está menstruada ou na posição vertical.

As mesmas falhas voltam a acontecer se não existir nenhuma intervenção social para o evitar, defende Sónia Ventura: "Algumas das adolescentes voltam a ser mães pela segunda e pela terceira vez por causa do erro que cometeram na primeira".

"Elas dão-nos as asas para nós voarmos"
O projecto Humanuscam dá formação e orienta para uma ocupação profissional mesmo com baixa escolaridade
Maria Campos foi mãe aos 16 anos. Já tinha deixado a escola, trabalhava com familiares na Docapesca, em Lisboa. Procurou outros empregos, inscreveu-se em lojas, mas nunca foi chamada para uma entrevista. A idade, a baixa escolaridade (6.º ano do 2.º ciclo) e um bebé a cargo tornaram-se critérios de exclusão para arranjar trabalho. E o namorado era na altura apenas um aprendiz de electricista de automóveis.

Maria Campos, actualmente com 19 anos, faz parte do primeiro grupo de 15 jovens integradas no projecto Humanuscam, que pretende dar autonomia de vida e facilitar a entrada no mercado de trabalho a grávidas ou mães adolescentes em risco sócio-económico e com baixa escolaridade.

Durante quatro meses, as jovens tiveram uma formação fora do comum: foram estimuladas a valorizar a diversidade no mundo, através da arte, e a adquirir competências para resolver problemas do dia-a-dia, recorrendo, por exemplo, à encenação teatral das suas dificuldades pessoais.

Aprenderam coisas tão diferentes como noções de informática, prevenção de acidentes com crianças ou como comportarem-se numa entrevista para um emprego.

"Agora penso de maneira diferente"
Depois foram orientadas para ocupações profissionais, tendo em conta as suas apetências e os estágios disponibilizados por empresas. São seis meses de experiência em trabalhos tão diferentes como cabeleireira, funcionária administrativa numa agência de modelos, camareira e empregada de limpeza num hotel.

Para Paula Alves, de 20 anos, que também integra o primeiro grupo do Humanuscam, o trabalho das técnicas no projecto é um passo para a autonomia: "Elas dão-nos as asas para nós voarmos".

No caso de Verónica Rebelo, de 17 anos, outro elemento do grupo, os voos estão planeados a longo prazo. Ser enfermeira pediátrica é um sonho, apesar de ter ficado com o 10.º ano interrompido pelos enjoos da gravidez. "Sou nova, tenho muitos anos pela frente para estudar", diz, depois de um dia de trabalho como administrativa numa agência de modelos.

Maria e Paula estão ambas a trabalhar num hotel de luxo, em Lisboa. Para quem, como elas, estava muito dependente financeiramente de outros, os primeiros salários são uma conquista.

A experiência no Humanuscam parece ter suavizado a rebeldia da adolescência. Maria reconhece que era uma rapariga muito revoltada, primeiro com a separação dos pais, depois com a morte da avó. "Eu era uma bandida, andava de autocarro sem bilhete, e não respeitava os velhotes. Agora penso de maneira diferente", relata.

O testemunho de Paula assenta na mesma linha: "Estou muito mais calma e aprendi a não julgar os outros pela aparência".

Sofia Rodrigues Público 02-09-06

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