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Dossiers Temáticos | Adolescência
Violência juvenil em Espanha em crescimento acelerado

Nos últimos dois meses, em Espanha, as agressões cometidas por adolescentes contra os sem-abrigo ou imigrantes repetiram-se nos motivos - simples diversão ou xenofobia - e aumentaram de número. Desde o início da década de 90 que os delitos realizados por menores têm vindo a crescer entre 1992 e 2002 as ocorrências registadas duplicaram, representando 11 por cento do total das queixas. Mas a agressão a um mendigo em Ayamonte, no início deste mês, e o caso de uma sem-abrigo queimada viva em Barcelona, em Dezembro, alertaram a opinião pública para a violência gratuita deste tipo de ataques.

Faltavam cinco dias para o Natal de 2005. Nas imagens divulgadas pela polícia espanhola, e obtidas pela câmara de vigilância de uma caixa multibanco, não se vêem as chamas, apenas um clarão quando os três jovens de Barcelona, depois de lançarem gasolina sobre uma sem-abrigo que ali entrara para se proteger do frio, lhe ateiam fogo com um fósforo. Pouco depois de entrar no hospital, a mulher, María Rosario, 50 anos, morreu.

Os três rapazes - dois deles com 18 anos e um com 16 - foram capturados dias mais tarde. Um adolescente, que os tinha acompanhado em outras ocasiões, disse "Sabia que podia acabar assim", referindo-se aos meses em que agrediram e roubaram mendigos e imigrantes apenas para se divertirem, gravando tudo com as câmaras dos seus telemóveis. "O que eles mais gostavam era de mijar-lhes em cima." Depois iam para um cibercafé e, usando a tecnologia dos seus telemóveis, distribuíam as imagens pelos amigos através da Net.

Agressão em Ayamonte
Entre Dezembro e Janeiro as agressões protagonizadas por adolescentes, seja pelo número seja pelo grau de violência, começaram a alertar as autoridades. Em Ayamonte, três jovens entraram numa caixa multibanco, onde dormia um mendigo alcoólico, e insultaram-no e agrediram-no. O homem apresentou queixa e a polícia deteve os adolescentes no dia 16 deste mês.

Nas primeiras três semanas de 2006, em Valladolid, um grupo de rapazes encarapuçados marcou suásticas, com um objecto cortante, em três raparigas, desenhando-lhes o símbolo nazi nas nádegas ou nas costas. Outras duas agressões a imigrantes ocorreram em Guadalajara, em Dezembro. E antes disso, em Setembro de 2005, um mendigo português que dormia numa rua de Jaén, Andaluzia, foi insultado com as frases "Levanta-te porco, que sujas a rua. Barbeia-te piolhoso", e depois regado com gasolina. O homem conseguiu apagar o fogo, mas ficou com queimaduras do segundo grau na cara e nas mãos. Os rapazes, que seriam capturados, tinham 13 e 17 anos.

Ócio e falta dos pais
Segundo os especialistas que têm estudado o assunto (ver entrevista), a violência gratuita, enquanto diversão e filmada em telemóveis, surge como resultado da ausência dos pais, do excesso do tempo de ócio, da cultura permissiva, dos habituais mecanismos de afirmação entre jovens, que costumam definir a sua personalidade por oposição aos adultos através de actos de rebeldia, embora agora com outros instrumentos - telemóveis, Internet. Os imigrantes e sem-abrigo são alvos fáceis e, para os jovens, inumanos, desnecessários, por isso susceptíveis de receberem castigos sem que isso origine culpa nos agressores.

Numa reportagem recente da televisão Antena 3, vários adolescentes falavam da moda de, nos liceus espanhóis, se gravarem agressões a colegas, bem como a supresa do agredido. Depois distribuem o resultado entre amigos e riem-se. Mostraram ainda, com orgulho, a colecção de imagens que tiram da Internet, de acentuada violência, embora muitas vezes fabricadas (decapitações, explosões de cabeças) e que guardam nos telemóveis.

Como quem aparece com um novo par de calças que só existe nos Estados Unidos ou é o melhor nas aulas de ginástica, os jovens entrevistados diziam que chegar à escola com novas imagens e dá-las aos amigos os fazia sentir poderosos e importantes. Esta moda pegou também em Inglaterra, onde ainda recentemente foram divulgadas imagens, recolhidas por um telemóvel, de dois adolescentes a agredirem um sem-abrigo.

Os polícias que apanharam os três agressores da mendiga de Barcelona, passaram alguns dias no ciber café frequentado pelos jovens e perceberam a quantidade do tráfico desse tipo de imagens, bem como a facilidade e rapidez do processo. Basta chegar à escola de manhã, apontar um telemóvel a outro e, com a tecnologia bluetooth, sem necessidade de fios, passar os filmes ou as fotos.

Numa entrevista ao jornal 20 Minutos, o pai de um dos jovens de Barcelona disse "Julgo que foi uma brincadeira que acabou em tragédia. Creio, no entanto, que estão conscientes do mal que fizeram. São miúdos modernos, de uma geração muito permissiva, que tiveram tudo. Talvez não tenhamos sido bons pais. O meu filho castigou-nos. Sinto-me um fracasso como pai.

Hugo Gonçalves DN 31-01-06

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