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Dossiers Temáticos | Sophia de Mello Breyner
Sophia: A afirmação silabada

A exactidão, a medida
É na mais completa independência que uma obra poética existe no mundo: ela recusa qualquer garantia ou explicação e possui o seu próprio poder de irradiação. Sendo consequência de um fazer, o poema é, como diz Sophia de Mello Breyner, uma relação com a realidade que é "essencialmente encontro e não conhecimento" ("Poesia e realidade", Colóquio, Revista de Artes e Letras, nº 8, pp.53 e 54, a partir daqui designado por PR). Coisa feita de palavras, ele é uma realidade que pertence à dimensão do sentido e do pensamento. É encontro e pensamento. Não é fórmula ou cálculo ou qualquer coisa que sirva, pois emerge de um poder criador que não se extingue naquilo que é criado, que permanece nele como o seu mais íntimo exterior. A insubstituibilidade de qualquer dos elementos do poema deve-se a uma exactidão da qual só a composição a que pertence é medida.

A face lapidada do poema nada tem de petrificação, ela torna-se fluida numa dança, um canto "que materializa a memória da profundidade, do caos" (como escrevi em Poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, Ed. Comunicação, 1989). Na dicção, oral e escrita, dos poemas de Sophia, cada palavra se destaca no seu brilho de corpo emergente para o acordo. As palavras são silabadas, o que não é apenas uma maneira de cativar o vazio, mas também de nelas morar e demorar, de opor resistência aos usos da linguagem que não deixam rastro porque são só o conforme das repetições. A demora nas palavras é um modo de as resgatar do peso da servidão, de lhes restituir a elasticidade, o ímpeto e o vigor que possuem quando não são separadas da physis, quando participam da sua força criadora, como se pode ler neste excerto do poema "Pascoaes": "A terra se desvenda verso a verso/ seu rosto é de pinhais sombras e mágoas/ Aqui o puro emergir: luas e água / E o antigo tempo irmão do universo".

Modernidade e divisão
A modernidade poética - iniciada por Hölderlin, Baudelaire, Rimbaud - assenta num pensamento da linguagem e do mundo que se vem opor à redução daquela a instrumento de predação e troca, e deste a um conjunto de entes à disposição. A negação do subjectivo e do objectivo, inerente a esse pensamento, corresponde a um repúdio da representação, tomada como cópia ou substituição, em que uma realidade se coloca em vez de outra numa relação de adequação que se pretende definidora da verdade. Sophia situa-se claramente em ruptura quer com um realismo da cópia, quer com a ideia de beleza como ornamento: "O mundo não precisa nem de retratos que o repitam nem de ornamentos que o enfeitem" (PR). Mas nunca a sua recusa da representação se constitui como algo que baste. Pelo contrário, ela só existe para dar lugar à criação - emergência de uma nova forma oferecida à escuta e ao olhar, à percepção de um outro "eu" que nela possa escavar o seu abismo e dela ressurgir como de um momento inicial. Daí a fluidez em que negação e afirmação, bem como superfície e profundidade, estão imbricadas, o que exclui qualquer efeito de um avesso, de uma negação existente por si só, da morte exterior à vida.

É isso que nos permite dizer que a afirmação é um aspecto central da sua reflexão sobre a arte, comum a outros artistas da modernidade, como Paul Klee, em que é apresentada como desígnio de "dar a ver o invisível" (inscrever o invisível na forma, no visível) e como necessidade do novo, de fuga à "visão preconcebida e morta", criando um campo da percepção em que do dado e do construído, inseparáveis, emerge a visão "original, limpa de intermediários, pura, viva e descobridora" (PR).

A Grécia, o regresso
Em epígrafe do seu estudo "O Nu na Antiguidade Clássica" (a partir daqui designado por NAC), Sophia coloca uma frase de Murilo Mendes: "Nunca mais escaparemos a esses gregos". Com outros, que refere - Hölderlin, Nietzsche, Heidegger, Pessoa -, ela procura na arte e no pensamento gregos a vitalidade de uma cultura terrestre, de um lugar onde a unidade e a divisão se instituem: "A Grécia recomeça sempre que reconhecemos como verdade, e não como exílio, como alheio, como alienação ou ilusão, o mundo em que estamos. Sempre que buscamos uma relação com a terra em que nada de nós se demita, adie ou transfira" (NAC, p.82). A Grécia não é por conseguinte um lugar modelo, ela é invocada como exemplo de uma pluralidade de conflitos e de respostas do homem no seu habitar. A consubstancialidade dos deuses ao universo, como instante de harmonia, nunca deixou de incluir a sombra ou perda que era a certeza da precaridade introduzida pela própria distância que a sustentava, pois se a imanência dos deuses, do poder dos corpos, é em si a harmonia, eles só existem retirando-se, abrindo o intervalo em que o sentido se infinitiza e, sem deixar de ser índice de perda, é recuperação do ímpeto primordial do encontro.

À instituição do gesto criador, ordenador, da Grécia arcaica, em luta contra o terror do sagrado, segue-se o tempo dos deuses e o da sua retirada. Mas cada um desses gestos permanece nos outros: o arcaico das epopeias homéricas existe perante o trágico de Ésquilo e este perante a interrupção socrático-platónica que vem impor a medida exterior, transcendente, e em que o julgamento se vem substituir à compaixão. O olhar voltado para a coexistência dos momentos gregos - "Ausentes são os deuses mas presidem" - corresponde em Sophia ao abandono de uma visão historicista, recusa de uma ideia de ultrapassagem do anterior e adesão a uma concepção de eterno retorno das diferenças em que o recomeço é sempre o de um "aqui" exterior à ordem cronológica (eterno, no sentido de interrupção, pelo que é criação, daquilo que se apresenta teleologicamente destinado), que nunca é ex-nihilo, mas em que o que se retém e o que se antecipa não se relacionam pela pura concatenação lógica, apenas se podendo dar na abertura ao inesperado, na recusa do já sabido. É assim que podemos entender a figura do poeta como aquele que escuta. A palavra silabada que se escuta é uma corrente de desvios, de inflexões, que à maneira do democritiano clinamen, engendram múltiplos percursos não-deterministas. Na arte grega encontra Sophia qualidades que facilmente podemos dizer que presidem à sua poesia: " a clareza, o rigor, a busca da proporção e do ritmo, o entendimento da proporção como princípio da beleza, a capacidade de dizer com os meios mais simples numa economia semelhante à do poema escrito com poucas palavras -, a articulação firme, o espírito atomístico onde cada elemento se integra no todo mas permanece inteiro separado do todo, a geometria, a busca da forma necessária, justa, essencial" (NAC, p.19, sublinhado meu).

É pois fora de qualquer projecto dialéctico, pela invocação da simultaneidade de memórias de diferentes momentos históricos e pela afirmação da contingência da leitura/reescrita, que a Grécia recomeça em Sophia. Daí que a sua poesia não ignore o terror como sentido original do sagrado, nem o Kaos enquanto tumulto de forças vitais, nem a partilha entre Dionisos e Apolo, que é já uma ordenação dessas forças. É a este nível da dualidade que se constroem equilíbrios de forças que colocam "antes da ordem musical da poesia, apolínea, uma outra espécie de música, a do mar ou princípio, dionisíaca" (cit. do meu texto "A linha musical do encantamento", in Relâmpago nº2, 1998). A forma do poema acolhe em si o informe como energia que desloca os limites do dizer, e que faz do poema um lugar de espanto e descoberta.

O equilíbrio realizado no poema é dinâmico. Cada palavra existe numa tensão com todas as outras e é em função dessa composição que as mesmas poucas palavras realizam a experiência das muitas perspectivas do seu ser múltiplo. Tal como o mar nunca é o mesmo - pois tanto é origem, da qual, como em Tales de Mileto, se recorta a terra, como puro espaço liso de travessia ou figura da própria inextinguibilidade do ritmo -, nenhuma palavra se repete idêntica.

O anónimo, a subjectividade - o exemplo
Uma das perspectivas em que a realidade do poema, que é a do encontro (afirmação, acontecimento, verdade), nos é dada é a da sua abertura ao leitor, anónimo e inqualificável. Ultrapassar os círculos do íntimo e fazer sentido no mundo que o acolhe é uma condição básica da sua existência. A sua partilha, aceitação, decorre da sua pregnância ou comunicabilidade, a força de nos tocar, a qual corresponde a uma persuasão oposta ao efeito pragmático da retórica e que melhor se associará a um impulso para a perfeição, figurado pelos gregos na divina Peithò. Na poesia de Sophia, a convocação do leitor para sair dos mecanismos identitários, que começam na formatação da percepção segundo o modelo da relação sujeito-objecto, faz-se como combate ao pathos através da geometria. Trata-se da atenção ao concreto, contingente, onde o homem não está como a medida certa, que não existe, mas se situa num campo fenomenal em permanente refazer de distâncias e proximidades. O poema é então criação de situações de percepção e acção que, enquanto tais, são exemplos (não modelos). O que é oferecido ao leitor é a realização precisa de algo que não pertence ao horizonte dos possíveis - a singularidade do gesto. Actualiza-se nessa criação um poder imenso que Espinosa assinalou: "O espírito humano está apto a perceber um muito grande número de coisas, e tanto mais apto quanto o seu corpo pode ser disposto de um maior número de maneiras" (Ética, II, prop.14). O poema é exemplo do único, inimitável, e daí a sua força que faz pensar, mudar. O poema dá a ver o mais importante da nossa realidade no anonimato: " A minha vida é o mar o Abril a rua / O meu interior é uma atenção voltada para fora / O meu viver escuta / A frase que de coisa em coisa silabada / Grava no espaço e no tempo a sua escrita / (..) / A terra o sol o vento o mar / São minha biografia e são meu rosto" (excertos de "Poema"). O poema permite entender que o facto de as coisas e os outros se darem apenas na experiência que delas temos não nos atira para uma irremediável situação de falta, mas que, pelo contrário, é daí que brota o ímpeto criador e a sua festa - "Meu coração busca as palavras do estio / busca o estio prometido nas palavras" ("Poesia de Inverno IV"). O poema ensina a admitir que a subjectividade não é o atributo de uma consciência e um querer, mas do agir em que passividade e actividade se reúnem, e sem cujo equilíbrio nada é livre. O poema incita a confiar na atenção ao mundo e à linguagem pela qual cada coisa em cada momento recebe o seu nome. Porque nada é definitivo. O que quer dizer que estético e ético são o mesmo.

Silvina Rodrigues Lopes - JL - 22-07-04

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