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Dossiers Temáticos | Sophia de Mello Breyner
Um Retrato de Sophia

Eduardo Lourenço

Olhares famosos fixaram deslumbrados a sua aparência, menos sedutora, em sentido vulgar, que também o era, do que silenciosamente irradiante na sua beleza. Outros não menos famosos, mas mais íntimos ou familiares da autora do "Dia do Mar", deixaram-nos dela singulares retratos, não só da sua aparência mas da sua existência, desde cedo vivida com uma fulgurância que não passava despercebida. Assim a viram, diversamente fascinados pela sua incandescência ou assumida excepção, os seus amigos Torga, Agustina, o seu primo, testemunho da infância partilhada, Ruben A. Esses retratos só têm de comum o serem romanescamente retratos de alguém que uma vez conhecido se impunha como obsessão pessoal ou figura da utopia ficcional dos seus autores. É a este título, e não como meras "fotografias" de uma vida, que eles são interessantes. À espera de quem os revisite ou até os descubra.

A "Sophia" de Torga é um dos principais personagens do seu único romance "Vindima", de clássica feitura, romance que não goza da celebridade dos seus "Contos", mas onde toda a sua mitologia teatralizada encontrou uma versão menos linear do que aquela que é costume atribuir-lhe. Em "Vindima" e como romancista, Torga concede aos seus personagens uma "liberdade" mais convincente, digamos um grau de imprevisto, que aos dos seus contos, figuras exemplares, de função simbólica ou mítica. Precisamente "Sophia" é nesse romance a musa do imprevisível, do incompreensível, menos pelo seu "mistério" feminino que pela sua vocação poética. Não por ser autora de poemas que lhe criaram uma aura mas por ser a Poesia mesma, alguém que habita o mundo de maneira original, "coração oposto ao mundo" (Pessoa), não só o dos grosseiros senhores do Douro de quem é hóspede, mas de todos os doutores Brunos, realistas, audazes, de "pés fincados no chão" para quem "Sophia" é menos um desafio que um enigma.

Na sua primeira aparição Catarina - Sophia - é já aquela criatura à parte, etérea, alheada, a futura "nereide" por Pascoaes invocada que de nada mais parece viver que do sonho que escolheu como seu anjo. "O prato dele estava repleto, gorduroso e odorento. E pôs-se, absurdamente, a comparar a realidade das iguarias com a espiritualidade que irradiava do rosto da rapariga. - Vivo quase com chá - desculpou-se Catarina. - Como não faço nada não gasto energias. Falava, e toda ela parecia erguer-se do chão numa ascese laica espontânea e natural, como o ímpeto de certas flores que, no alongamento excessivo da haste, fogem à condição da raiz. - E porque é que não trabalha? - perguntou o Dr. Bruno, a olhá-la como se a violasse."

A visão de Torga é a mais naturalista, como se podia prever. Mas é também a mais idealizante, na verdade, a mais amorosa que o seu naturalismo erótico alcançou e sublimou: "Delgada e frágil, nascia-lhe da testa alta e aberta um cabelo tenro como uma relva. Os olhos, muito azuis e de uma pureza de água, tinham qualquer coisa da inocência dos bichos. Na pele fina do rosto, redondo e suave, havia uma transparência de cera. E ao mesmo tempo toda ela era mulher, feminina e atraente como uma leiva de jardim."

Foi exactamente esta Sophia ainda juvenil, a de que tive notícia, não nestas páginas de "Vindima", mas nas palavras do próprio Torga, visivelmente fascinado e "enamorado" de tão ideal Musa, que até em versos foi mais do que comummente se imagina. Como ele o tinha sido ou era ainda dela. Em "Vindima" Torga ofereceu-lhe, sem pouca ficção, os sonhos que a realidade não comportava. Na vida, não sei em que momento, idealizou, para ela, na mais transmontana tradição casamenteira, uma espécie de enlace utópico com um dos mais belos poetas do seu tempo, as núpcias ideais do masculino e do feminino. Contou-me que favoreceu até onde pôde o idílio improvável de Eugénio e Sophia... Seria o casamento do século.

Digo-o sem ironia. Mas os deuses são mais sábios que os humanos. Sem dúvida que ambos decidiram salvar do naufrágio sempre plausível da vida, a barca solar da Poesia. Aí se encontraram e se salvaram.

Vence, 7 de Julho de 2004

Público 10-07-04

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