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Dossiers Temáticos | Sophia de Mello Breyner
Dois quase poemas para Sophia

Para uma voz que continuará connosco

E o que te diz ela a ti ... essa canção
que só pode ser ouvida por quem
na sua própria voz cantando a escuta?
- Nada lhe peço que me diga Apenas
que venha que continue a chegar
até mim com a sua morte a viver
oferecida viva e sem remédio.

E há então... uma tal soturna idade
uma tão violenta doçura... agora
que para sempre / por momentos
adia o meu morrer.

**
Aquele que em comum falávamos
comíamos e praticávamos, o velho que já de tudo
mesmo do amor se exilara, o escriba da fúria rigorosa
escrevia ainda, continua escriturando:

Quem pode ser no mundo tão quieto
Que o não movem nem o clamor do dia
Nem a cólera dos homens desabitados
Nem o diamante da noite que se estilhaça e voa
Nem a ira, o grito ininterrupto e suspenso
Que golpeia aqueles a quem a voz cegaram
Quem pode ser no mundo tão quieto
que o não mova o próprio mundo nele

Manuel Gusmão in Público 10-07-04

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