Sabes, o mundo estragou-se, estragou-se muito nestes últimos anos. No
Uganda os homens tornaram-se abjectos lobos. Os horrores da limpeza étnica
regressaram à Europa. Dos céus voltam a cair em território
europeu bombas mortíferas que rebentam com cinco décadas de paz.
Manhattan sucumbe debaixo de um ódio cego, traiçoeiro, velhaco
e assassino. No Iraque instala-se a guerra. Um muro iníquo, vergonhoso
e violento cresce impunemente todos os dias, dividindo, qual sinal de todas
as derrotas, a Palestina. A Europa envelhece e os outros morrem de fome. O Planeta
protesta exangue, mas ninguém o ouve. O mundo porta-se mal.
Sabes, por vezes toma conta de mim aquela melancolia adolescente dos finais
de tarde de Setembro, quando a tranquilidade do cair da noite nos avisava do
fim de um tempo. Quando se tornava claro que as férias iam terminar,
que nunca mais voltaríamos a ser os mesmos - mesmo que aos mesmos locais
regressássemos. "Nos derniers baisers". Voltaríamos,
é verdade. Mas mais velhos, mais perros de sentimentos e mais presos
a realidades que não eram dali e nos roubavam o sonho.
Ao olhar o mundo, sinto por vezes regressar essa melancolia: um certo modo
de pensar, construir e viver a civilidade, a democracia, a justiça e
a paz vai transformar-se num adolescente sonho de Verão? Num passado
de cuja realidade passaremos a duvidar? Numa memória repudiada?
Preciso de te reler:
És tu que estás
És Tu que estás à transparências das cidades
Vê-se o Teu rosto para além dos bairros interditos.
O mal palpável próximo insistente
Parece tornar-Te evidente.
Sobe do destino uma sede de Ti.
Não somos só isto que se torce
Com as mãos cortadas aqui.
Jorge Wemans
causa-nossa.blogspot.com/
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