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"Freud tem sido validado pela neurociência"
António Damásio, um dos mais importantes neurocientistas contemporâneos,
autor de best-sellers como "O errro de Descartes" ou o "Sentimento
de Si" é actualmente professor de Neurociência e Director
no "Brain and Creativity Institute", na Universidade da Califórnia
do Sul. Tem sido um dos defensores do diálogo com a psicanálise.
Como é que encara a psicanálise, como é que olha hoje
para ela?
Penso que há que fazer, antes de mais, uma distinção entre
o pensamento de Freud em geral e a psicanálise em particular. As pessoas
confundem muitas vezes as duas coisas. O pensamento de Freud é um pensamento
extremamente interessante. Freud foi não só um psiquiatra e psicólogo,
mas também um neurologista: o treino de Freud começou através
da neurologia e ele tomou conhecimento de praticamente tudo quanto era sabido
ao tempo sobre o sistema nervoso central, sobre o cérebro. Isso é
uma distinção extremamente importante.
O pensamento dele foi extremamente inovador pela maneira como valorizou os
fenómenos da emoção e os fenómenos não conscientes.
Se considerarmos o valor que deu a esses fenómenos na criação
de psicopatologias, temos imediatamente duas enormes contribuições
para o pensamento, que tiveram uma enorme influência na forma como, durante
o século XX, as pessoas encararam o espírito humano e a forma
como se relacionam entre si e como se relacionam com o mundo.
É nisso que temos de valorizar Freud, independentemente de tudo aquilo
que acharmos correcto ou incorrecto à medida que a ciência avança.
Sem dúvida que a neurociência tem demonstrado que os processos
inconscientes são uma realidade e que grande parte da nossa vida mental
não se passa ao nível da consciência, mas sim num nível
mais subterrâneo. Por outro lado, a neurociência também tem
demonstrado que o papel das emoções está muito mais de
acordo com aquilo que Freud apontava do que se pensava.
Portanto, podemos dizer que Freud tem sido validado pela neurociência.
Ao mesmo tempo, é evidente que há certas construções
em Freud que não resistem tanto ao tempo, que têm um carácter
mais literário, mais "soft". Mas isso não é um
problema: não há muitos pensamentos, científicos ou não,
que ao fim de um século possam ser considerados perfeitos.
Mas a psicanálise é também uma prática terapêutica.
Como é que a vê a esse nível?
No que diz respeito à psicanálise como prática psiquiátrica,
como maneira de lidar com doenças mentais, aí a resposta é
mais complicada, porque há diferentes aspectos. Houve, pelo menos durante
uma parte do século XX, uma percepção da psicanálise
como a solução para todos os problemas psiquiátricos, para
todas as doenças mentais. É evidente que isso é um exagero
porque há problemas que de facto a psicanálise não pode
resolver de uma forma efectiva. O que não quer dizer que não haja
imensas situações em que o tradicional processo analítico
não tenha enormes vantagens.
Mas o que eu sublinho é que há uma distinção a
fazer entre o contributo teórico de Freud, o que ele lançou como
prática, e a forma como essa prática evoluiu, independentemente
de Freud - e como se sabe com enormes diferenças de escola para escola.
Para além da psicanálise existem inúmeras técnicas
de psicoterapia. Pensa que a psicanálise perdeu pertinência face
a outras terapias nos últimos 50 anos?
Eu diria que sim, mas aí tenho de ressalvar que a minha opinião
tem tanto valor como outra. Como neurocientista, como neurologista, não
tenho prática psicanalítica e não tenho maneira de avaliar
proporcionalmente qual é o impacto real da psicanálise no mundo
de hoje.
Mas acha que tem ainda alguma pertinência fazer-se hoje tratamentos
psicanalíticos?
Parece-me extremamente difícil de julgar porque não tenho
de facto conhecimento suficiente para dar uma resposta sensata. Uma coisa que
diria, no entanto, é que, pertinente ou não pertinente em maior
ou menor número de casos, o facto é que o lançamento da
psicanálise levou à existência de outras terapias. Possivelmente
teria sido mais difícil criar outras modalidades de tratamento se não
tivesse sido lançada primeiro a psicanálise. Isso parece-me um
contributo importante e não há dúvida que hoje em dia existe
uma enorme gama de escolhas possíveis, escolhas que têm de ser
feitas através de pessoas que estudem as diversas terapias e que possam
estabelecer a indicação de dadas terapias para dadas condições.
Como é que o seu trabalho sobre as emoções se relaciona
com as psicoterapias?
Em relação ao meu próprio trabalho, o que me interessa
é saber mais sobre os mecanismos fundamentais da emoção.
O meu trabalho começou pelo estudo de algumas emoções de
natureza mais simples, como o medo, a tristeza, a felicidade. Hoje em dia, estou
mais interessado nas emoções ditas sociais, como a compaixão,
o embaraço, a vergonha, várias das emoções que aparecem
quando há uma estrutura social e quando indivíduos numa determinada
situação social detectam um determinado acontecimento.
Essas são as emoções que me parece mais interessante estudar
neste momento, porque nos vão permitir revelar muito sobre a forma como
o nosso espaço social e cultural tem vindo a ser construído através
da evolução. Há aí muitas coisas importantes a aprender,
tanto para elucidar psicopatologias, para elucidar doenças ditas mentais
- que evidentemente muitas vezes têm um cariz social e cultural, porque
são situações sociais ou culturais que agravam ou até
permitem a construção do problema -, como para percebermos as
relações entre seres humanos, fora do campo médico propriamente
dito.
O estudo das emoções sociais, que me parece uma área de
ponta neste momento, tem esse duplo cariz: por um lado, continua a ser um estudo
biomédico porque há um enorme número de casos de sofrimento
que precisam de ser compreendidos e tratados. Por outro lado, ajuda-nos a compreender
o mundo em que vivemos do ponto de vista social, em que há conflitos
de toda espécie e dificuldades de comunicação que têm
muito a ver com essa tradução emocional que estamos a investigar.
Essa relevância dada às emoções faz com que se
sinta um herdeiro daquilo que Freud fez há cerca de cem anos?
Herdeiro é um pouco pretensioso. Para mim, Freud conta, tal como outros
grandes vultos dos últimos dois séculos, como uma figura que tem
aspectos pioneiros. Eu poria Freud ao lado, por exemplo, de Darwin, ao lado
de William James, como figuras extremamente importantes na contribuição
que fizeram ao pensar na coisa humana, ao pensar a forma como o cérebro,
a mente e as relações sociais podem funcionar.
Não quero dar mais valor a um do que a outro; têm diferentes contribuições
mas fazem parte de um background de pensamento que entra na forma como hoje
em dia olhamos para certos problemas, por vezes quase sem darmos por isso, porque
esse pensamento está lá e teve a sua influência. É
aí que está o grande valor destes personagens históricos
Ana Gerschenfeld
Pública 30-04-06
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