Educadores de Infância
1.º Ciclo
Português
Inglês
Francês
Matemática
Ciências Físico-Químicas
Biologia / Geologia
Ciências Económico-Sociais
Informática
História
Psicologia
Filosofia
Geografia
Educação Visual e Tecnológica
Educação Física
Ciência Política
Contactos

Netprof
Rua da Restauração, 365
4099-023 Porto

E-mail: assistente@netprof.pt
Dossiers Temáticos | Sigmund Freud
Entrevista com António Damásio
"Freud tem sido validado pela neurociência"

António Damásio, um dos mais importantes neurocientistas contemporâneos, autor de best-sellers como "O errro de Descartes" ou o "Sentimento de Si" é actualmente professor de Neurociência e Director no "Brain and Creativity Institute", na Universidade da Califórnia do Sul. Tem sido um dos defensores do diálogo com a psicanálise.

Como é que encara a psicanálise, como é que olha hoje para ela?
Penso que há que fazer, antes de mais, uma distinção entre o pensamento de Freud em geral e a psicanálise em particular. As pessoas confundem muitas vezes as duas coisas. O pensamento de Freud é um pensamento extremamente interessante. Freud foi não só um psiquiatra e psicólogo, mas também um neurologista: o treino de Freud começou através da neurologia e ele tomou conhecimento de praticamente tudo quanto era sabido ao tempo sobre o sistema nervoso central, sobre o cérebro. Isso é uma distinção extremamente importante.

O pensamento dele foi extremamente inovador pela maneira como valorizou os fenómenos da emoção e os fenómenos não conscientes. Se considerarmos o valor que deu a esses fenómenos na criação de psicopatologias, temos imediatamente duas enormes contribuições para o pensamento, que tiveram uma enorme influência na forma como, durante o século XX, as pessoas encararam o espírito humano e a forma como se relacionam entre si e como se relacionam com o mundo.

É nisso que temos de valorizar Freud, independentemente de tudo aquilo que acharmos correcto ou incorrecto à medida que a ciência avança. Sem dúvida que a neurociência tem demonstrado que os processos inconscientes são uma realidade e que grande parte da nossa vida mental não se passa ao nível da consciência, mas sim num nível mais subterrâneo. Por outro lado, a neurociência também tem demonstrado que o papel das emoções está muito mais de acordo com aquilo que Freud apontava do que se pensava.

Portanto, podemos dizer que Freud tem sido validado pela neurociência. Ao mesmo tempo, é evidente que há certas construções em Freud que não resistem tanto ao tempo, que têm um carácter mais literário, mais "soft". Mas isso não é um problema: não há muitos pensamentos, científicos ou não, que ao fim de um século possam ser considerados perfeitos.

Mas a psicanálise é também uma prática terapêutica. Como é que a vê a esse nível?
No que diz respeito à psicanálise como prática psiquiátrica, como maneira de lidar com doenças mentais, aí a resposta é mais complicada, porque há diferentes aspectos. Houve, pelo menos durante uma parte do século XX, uma percepção da psicanálise como a solução para todos os problemas psiquiátricos, para todas as doenças mentais. É evidente que isso é um exagero porque há problemas que de facto a psicanálise não pode resolver de uma forma efectiva. O que não quer dizer que não haja imensas situações em que o tradicional processo analítico não tenha enormes vantagens.

Mas o que eu sublinho é que há uma distinção a fazer entre o contributo teórico de Freud, o que ele lançou como prática, e a forma como essa prática evoluiu, independentemente de Freud - e como se sabe com enormes diferenças de escola para escola.

Para além da psicanálise existem inúmeras técnicas de psicoterapia. Pensa que a psicanálise perdeu pertinência face a outras terapias nos últimos 50 anos?
Eu diria que sim, mas aí tenho de ressalvar que a minha opinião tem tanto valor como outra. Como neurocientista, como neurologista, não tenho prática psicanalítica e não tenho maneira de avaliar proporcionalmente qual é o impacto real da psicanálise no mundo de hoje.

Mas acha que tem ainda alguma pertinência fazer-se hoje tratamentos psicanalíticos?
Parece-me extremamente difícil de julgar porque não tenho de facto conhecimento suficiente para dar uma resposta sensata. Uma coisa que diria, no entanto, é que, pertinente ou não pertinente em maior ou menor número de casos, o facto é que o lançamento da psicanálise levou à existência de outras terapias. Possivelmente teria sido mais difícil criar outras modalidades de tratamento se não tivesse sido lançada primeiro a psicanálise. Isso parece-me um contributo importante e não há dúvida que hoje em dia existe uma enorme gama de escolhas possíveis, escolhas que têm de ser feitas através de pessoas que estudem as diversas terapias e que possam estabelecer a indicação de dadas terapias para dadas condições.

Como é que o seu trabalho sobre as emoções se relaciona com as psicoterapias?
Em relação ao meu próprio trabalho, o que me interessa é saber mais sobre os mecanismos fundamentais da emoção. O meu trabalho começou pelo estudo de algumas emoções de natureza mais simples, como o medo, a tristeza, a felicidade. Hoje em dia, estou mais interessado nas emoções ditas sociais, como a compaixão, o embaraço, a vergonha, várias das emoções que aparecem quando há uma estrutura social e quando indivíduos numa determinada situação social detectam um determinado acontecimento.

Essas são as emoções que me parece mais interessante estudar neste momento, porque nos vão permitir revelar muito sobre a forma como o nosso espaço social e cultural tem vindo a ser construído através da evolução. Há aí muitas coisas importantes a aprender, tanto para elucidar psicopatologias, para elucidar doenças ditas mentais - que evidentemente muitas vezes têm um cariz social e cultural, porque são situações sociais ou culturais que agravam ou até permitem a construção do problema -, como para percebermos as relações entre seres humanos, fora do campo médico propriamente dito.

O estudo das emoções sociais, que me parece uma área de ponta neste momento, tem esse duplo cariz: por um lado, continua a ser um estudo biomédico porque há um enorme número de casos de sofrimento que precisam de ser compreendidos e tratados. Por outro lado, ajuda-nos a compreender o mundo em que vivemos do ponto de vista social, em que há conflitos de toda espécie e dificuldades de comunicação que têm muito a ver com essa tradução emocional que estamos a investigar.

Essa relevância dada às emoções faz com que se sinta um herdeiro daquilo que Freud fez há cerca de cem anos?
Herdeiro é um pouco pretensioso. Para mim, Freud conta, tal como outros grandes vultos dos últimos dois séculos, como uma figura que tem aspectos pioneiros. Eu poria Freud ao lado, por exemplo, de Darwin, ao lado de William James, como figuras extremamente importantes na contribuição que fizeram ao pensar na coisa humana, ao pensar a forma como o cérebro, a mente e as relações sociais podem funcionar.

Não quero dar mais valor a um do que a outro; têm diferentes contribuições mas fazem parte de um background de pensamento que entra na forma como hoje em dia olhamos para certos problemas, por vezes quase sem darmos por isso, porque esse pensamento está lá e teve a sua influência. É aí que está o grande valor destes personagens históricos

Ana Gerschenfeld
Pública 30-04-06

Outros artigos

"Freud salvou-me", recorda a última paciente viva do pai da psicanálise

Biografia

O nosso bisavô de Viena

Entrevista com João Seabra Diniz

Os 150 anos de Freud