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Amultiplicação das comemorações, estruturadas em
volta de datas redondas, é uma das características do início
do século XXI. O culto das celebrações públicas
permite que se organize, à sua volta, uma indústria comemorativa,
pública e privada, que, de efeméride em efeméride, se desenvolve
e próspera. O vazio provocado pela crise das ideologias, sustentam alguns,
favorece a "febre" comemorativa, permitindo reinventar no espaço
público "momentos" de livre debate. Pelo lado do cidadão
comum, os ciclos comemorativos oferecem a oportunidade de reduzir o desconhecimento,
de preencher lacunas ou de despertar interesse por áreas mal conhecidas.
Os 150 anos do nascimento do nosso bisavô de Viena, Sigmund Freud, médico
psiquiatra, fundador da Psicanálise, deram origem a múltiplas
celebrações e polémicas. A austera figura de Freud voltou
- se alguma vez deixou de estar - ao centro de debates que transbordam dos circuitos
de especialistas para chegarem ao "grande público". A questão
da sexualidade, associada ao nome do pensador de Viena, faz do seu legado tema
apelativo. Especialistas e leigos, amigos e inimigos defrontam-se, de novo,
em palcos de discórdia, sobre a validade científica e a actualidade
do contributo freudiano.
Além das discussões sobre o pensamento e a obra do psicanalista
austríaco, surgem simultaneamente os ensaios biográficos acerca
da figura de Freud, respeitada e controversa, admirada e criticada. Na perspectiva
de atenuar o desconhecimento, percorri, em jeito de ritual comemorativo, o belo
livro e pequeno álbum de Catherine Clément, intitulado Pour Sigmund
Freud (Paris, Mengès, 2005). Sob a forma de carta dirigida ao médico
de Viena, a escritora, num tom apaixonado e provocador, mostra as grandezas
e as misérias, as descobertas científicas e os erros, a actualidade
e a desactualização de certos postulados freudianos. Longe do
tom apocalíptico dos "livros negros da Psicanálise"
e de publicações que tais, Clément revela que a admiração
apaixonada não é incompatível com a atitude crítica,
nem a simpatia do biógrafo conduz obrigatoriamente a resvalar para a
hagiografia.
O inconsciente e a sexualidade
Por que motivo as teorias de Freud causaram (e continuam a causar...) tanta
irritação e mal-estar, quando não perseguição
e interdição (sob o nazismo ou o estalinismo), nas sociedades
contemporâneas? Não certamente porque traziam novidade, eram contestáveis
e continham análises erróneas. Não seguramente por motivos
apenas científicos e metodológicos. Apesar do muito que mudou
no período de tempo decorrido entre a transição do século
XIX para o século XX e a entrada no terceiro milénio, a resposta
pertinente as estas perguntas permanece inscrita nas palavras do seu amigo Stephen
Zweig: "Inconscientemente, o mundo optimista e liberal sentia que aquele
espírito que não aceitava compromissos minava inexoravelmente,
com a sua psicologia das profundezas, a tese do crescente domínio exercido
pela "razão" e pelo "progresso" sobre as pulsões,
e que, devido à impiedosa técnica do desvelar, constituía
um perigo para o método praticado por esse mesmo mundo, que consistia
em ignorar o que era incómodo" (O Mundo dos Outros).
A incomodidade, a resistência, o boicote (desde logo, o do seu consultório
médico em Viena), a zombaria (a começar nos salões intelectuais
da capital do império austro-húngaro), a suspeição
perseguiram as teses freudianas até aos nossos dias. O nazismo proibia
a psicanálise, designando-a por "ciência judaica", enquanto
nas "democracias populares" do Leste o fundamento da interdição
assentava na classificação de "ciência burguesa".
Em nome da ciência ou da religião, o que estava em causa, mais
do que a validade de determinadas teorias, era a pretensão de fazer investigar
ou de transformar em objecto de conhecimento legítimo a "caixa negra"
do ser humano, o "inconsciente", a sexualidade, a "libido",
os sonhos...
É quase clássica esta passagem do famoso ensaio de Thomas Mann
Freud e o Pensamento Moderno: "Explorador das profundezas da alma e psicólogo
da "pulsão", Freud inscreve-se na linhagem dos escritores do
séculos XIX e XX - historiadores, filósofos, críticos ou
arqueólogos que se opõem ao racionalismo, ao intelectualismo,
ao classicismo, em síntese à fé no espírito do século
XVIII. Esses pensadores sublinham o lado negro da alma e da natureza, nos quais
vêem o factor determinante da vida, cultivam-no e esclarecem-no numa perspectiva
científica". Ao culto de uma razão que deseja circunscrever
o conhecimento à consciência e à existência social
dos seres humanos, Freud contrapõe a necessidade de analisar a subjectividade
profunda e o inconsciente, embora o faça - conforme sublinha Elisabete
Roudinesco - numa "hesitação permanente (...) entre a sombra
e a luz, entre a paixão e a razão, entre o irracional e a ciência
(...)". Apesar do choque que provoca entre os (supostos ou autênticos)
herdeiros do espírito racionalista do século XVIII, as teorias
freudianas querem situar-se ainda no seu prolongamento, no âmbito de "um
pacto fundador que liga a psicanálise à filosofia das Luzes e
a uma concepção do sujeito baseada na razão" (Roudinesco).
Coragem moral
A contestação da teoria freudiana prolonga-se até aos nossos
dias. A tal não é alheia a existência de cerca de oitocentas
escolas de Psicoterapia no mundo contemporâneo, onde se confundem correntes
ligadas à ciência e à racionalidade com práticas
mágicas e religiosas que se reclamam da designação de Psicanálise.
A herança de Freud passou sempre pela rejeição simultânea
das práticas mágicas e dos limites positivistas da pura racionalidade
cientista.
Quase um século decorrido, algumas das hipóteses e postulados
freudianos aparecem, aos olhos dos seus próprios herdeiros, como ultrapassadas
e, nalguns casos, erróneas, conforme sucede com as suas teses sobre a
sexualidade da mulher, aliás, tal como nota Clément, contraditórias
com os actos e a vida do próprio Freud. Mas o seu método de análise,
baseado na palavra, na escuta e na livre associação, permanece
vivo, por entre múltiplas críticas, fundamentadas, por vezes,
na (alegada) ausência de validação experimental ou na (suposta)
eficácia de outras correntes de Psicoterapia.
A relevância histórica de Sigmund Freud situa-se, ao que me parece,
para além da própria questão da actualidade da Psicanálise,
enquanto método curativo ou trabalho cultural. A ele, se deve, no dizer
de Catherine Clément, "a maior revolução intelectual
do século XIX, aquela que introduziria, no século seguinte, o
perigo do sexo recalcado". "O importante, aquilo que permanece do
pensamento de Freud - escreve José Bragança de Miranda (JL, 26
de Abril) - é a ousadia da sua tentativa, mais ainda, é o estilo
novo com que aborda o "sucesso e insucesso da razão, que nunca são
aqueles por que esperamos". Talvez não seja só isso, mas,
se mais não for, já seria imenso.
Alguém de boa fé, mesmo que seja agnóstico em Psicanálise
(perdoe-se a expressão imprópria...), negará a Freud mérito
e coragem pela forma como assumiu o escândalo de enfrentar o lado obscuro
e oculto dos seres humanos, com os frágeis instrumentos da racionalidade?
Stephen Zweig, escritor amigo e autor do elogio fúnebre na cerimónia
da cremação, em Londres, onde estavam exilados, disse-o com o
necessário desassombro: "Sempre que procuro um símbolo para
a ideia de coragem moral - o único heroísmo à face da terra
que não exige vítimas alheias - vejo sempre o belo semblante de
Freud, na sua claridade viril, com os olhos escuros, fitando a direito e serenamente".
Mário Mesquita
Público 30-04-06
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