Foi director do Serviço de Acção Social da Misericórdia
de Lisboa e coordenador do Projecto de Apoio à Família e à
Criança.Desenvolveu trabalho na área da adopção
Autor do livro "Este meu filho que eu não tive", editado pela
Afrontamento
Não podemos apresentar às crianças um mundo sem violência
O mundo infantil é, normalmente, muito perturbado, muito agitado
Não é através da eliminação dos conteúdos
violentos dos contos tradicionais infantis que se faz a prevenção
da violência na criança, considera João Seabra Diniz. O
que é preciso é mostrar aos mais pequenos que há uma maneira
de resolver esses problemas. E uma forma de o fazer é contar-lhes, até
ao fim, as histórias que têm perdurado através dos tempos,
que incluem todos os problemas estruturais da personalidade das crianças,
os seus conflitos e a forma de os solucionar. O psicanalista, que trabalha na
área da saúde mental infantil, contraria assim a tendência
adoptada por alguns educadores que defendem a exclusão de medos, sustos
e angústias das histórias tradicionais. Por exemplo, o lobo mau
do Capuchinho Vermelho já não come a avozinha, apenas a assusta.
Esta tendência chegou também às cantigas infantis. Em algumas
creches portuguesas e em discos de música infantil, como os das Músicas
da Carochinha, a letra do "Atirei o pau ao gato, mas o gato não
morreu", passou a "Atirei o pau ao gato, mas o gato não comeu".
Público - É importante contrariar a ideia favorável
à eliminação dos conteúdos violentos das histórias
infantis, com vista à prevenção da violência?
João Seabra Diniz - Sim. Claramente, é preciso contrariar
essa ideia porque ela parte de um equívoco. O de pensar que o mundo da
criança é um mundo pacífico em que não há
medos, não há sustos, não há raivas, não
há zangas e que isso vem tudo de fora. De facto há muita coisa
que vem de fora, mas o próprio mundo da criança é muitas
vezes tumultuoso, assustador. As crianças mostram-no, muitas vezes, nas
coisas que dizem e imaginam, nas histórias que contam sem ninguém
lhes ter contado e que são terríficas.
P. - Está a dizer que as crianças são naturalmente
violentas?
R. - O que digo é que o mundo infantil é, normalmente,
muito perturbado, muito agitado. É por isso que a criança precisa
regularmente e quotidianamente da presença de figuras benéficas
que tornem aquele mundo mais estável e compreensível. Por exemplo,
quando uma mãe se atrasa para ir buscar o filho à escola, muitas
vezes, quando chega, a criança está em pânico porque está
a pensar que foi abandonada. As crianças podem entrar em pânico,
podem ter movimentos de ira muito violentos. Partindo deste princípio,
de que no próprio mundo das crianças existem medos e figuras terríficas,
uma das funções parentais importantes é funcionar em uníssono
com as crianças para que estes medos possam ser contidos, ser compreendidos
e possam evoluir.
P. - Mas concorda com a ideia de que a violência gera violência?
R. - A ideia de que os conteúdos de violência podem ter
uma influência nefasta nas crianças é verdade. Os jogos
das "playstations", a violência no desporto, algumas imagens
que a televisão nos apresenta são evidentemente perturbadoras.
Mas quanto às histórias infantis, a situação é
diferente porque traduzem uma sabedoria onde são apresentados os conflitos
e os dramas do mundo infantil como são vividos pela criança, as
consequências que resultam destes conflitos mas depois há uma solução.
E aqui é que está a chave do problema.
P. - Defende que os contos tradicionais devem ser contados, em vez de
lidos...
R. - Há duas coisas que são fundamentais em relação
aos contos tradicionais. Primeiro, contá-los até ao fim porque
no fim as coisas resolvem-se. E segundo, contá-los, não mandá-los
ler. Uma coisa é uma criança estar entregue a um livro com gravuras
extremamente aterrorizadoras, sozinha, outra coisa é ouvir contar uma
história de medo ao colo da mãe ou ao colo da avó. Para
compreendermos os contos tradicionais, é absolutamente essencial não
perdermos de vista que não foram feitos para ser lidos, mas para ser
contados e mesmo num contexto em que há várias pessoas. É
uma oportunidade, para muitas crianças, de encontrarem os seus conflitos
e uma maneira de os resolver.
P. - E de que forma isso se processa?
R. - Por exemplo, no conto "Os três cabelos do Diabo"
encontram-se os contextos familiares, as figuras protectoras e a resolução
dos problemas. Todas as histórias têm um fim que dá um destino
aos conflitos. Um destino prático à medida do dia-a-dia das crianças
pequenas.
Lembro-me de que uma vez estava a falar com uma senhora a quem disse que a história
do Capuchinho Vermelho era benéfica. Ela não concordou porque
todas as noites a contava à filha e ela ficava numa ansiedade brutal.
E então eu perguntei-lhe como é que acabava a história.
Na história, a menina recebe uma ordem: "Vais levar isto à
avó mas não sais do caminho." E a criança cede à
tentação e desobedece, que é uma coisa que acontece a todas
as crianças. Têm o desejo de desobedecer, de fazer o que os pais
não deixam e depois o medo do que vai acontecer, o sentimento de culpa.
E acontece uma coisa terrível. O lobo come a avó e a menina. E
esta senhora acabava a história aqui. A criança ficava confrontada
com a catástrofe da sua transgressão e sem ninguém para
lhe dizer como se saía da situação. Quando a história
continua, e vem o caçador, que é figura do pai, abre o lobo, ralha
com a menina, tira de lá a avó e resolve o problema. Portanto,
há aqui a mediação de uma figura de autoridade, com força
e com competência que é capaz de reconstruir a situação.
P. - Quando este final é modificado, quando lhe são retirados
os conteúdos mais violentos, substituindo-os por soluções
conciliadoras, tais como o lobo que se torna amigo da avó, etc., como
agora se começa a fazer, o que acontece?
R. - Está a tirar-se toda a verosimilhança e toda a autenticidade
psicológica à história. Porque a violência é
violência, os perigos são os perigos, existem. Não podemos
apresentar às crianças um mundo onde eles não existem porque
esse é um mundo perfeitamente irreal. Temos de lhes dizer que existe
a violência, o medo, o perigo, mas há uma maneira de resolver esses
problemas.
P. - O principal benefício dos contos infantis é esse
caminho para as crianças descobrirem a solução daquilo
que as inquieta...
R. - Exactamente, é um caminho. O próprio contar da história
é uma espécie de sessão de terapia. Há períodos
da vida da criança em que ela tem um especial interesse por determinada
história. Tem de ouvir todos os dias aquela história. Ela sabe-a
de cor e se o adulto altera qualquer pormenor, ela diz que não é
assim...
P. - E por que é que não quer que o final seja modificado?
R. - Porque justamente o que lhe interessa é reviver aquela situação,
o medo, o susto e depois a solução. Uma vez um jovem pai disse-me
que não devia ser sempre assim e dizia que, todas as noites, a filha
queria que ele lhe contasse a história do Capuchinho Vermelho, mesmo
depois de a mãe já lha ter contado, e se isso não acontecesse,
ela não dormia. Ele queria saber porquê. E eu respondi-lhe: "Por
uma questão muito simples, porque tu estás no lugar do lobo e
ela olha para ti como um perigo." E ele abriu os olhos muito espantado
e disse: "Então é por isso que todas as noites ela diz: "O
pai não come a Rita, pois não?"" O pai dizia que não
e ela então adormecia tranquila, precisava de reviver aquela situação.
É uma dinâmica relacional complexa que é benéfica
se bem feita.
P. - O problema é que muita gente não respeita esse modo
de contar as histórias.
R. - O problema é que as pessoas não têm uma compreensão
profunda do significado deste processo e tentam atenuar as coisas...
P. - Não recomenda portanto a prática que parece estar
a ser seguida por alguns educadores de infância e em certos jardins-escola
de eliminar os conteúdos violentos dos contos infantis?
R. - Não recomendo de maneira nenhuma. Lembro-me de fazer sessões
precisamente sobre isso na Escola Superior de Educação de Lisboa,
com escritores infantis, dando exemplos e se isso voltou para trás é
uma pena... mas acho que o que se está a fazer hoje com crianças
perde de vista, muitas vezes, uma perspectiva correcta.
P. - Esta ideia vinga, em certos meios, em nome da prevenção
da violência. Visto que há uma luta desigual entre a família,
que quer proteger a criança, e a sociedade de consumo, que lança
os mais diversos e atractivos apelos no que respeita a estilos de vida. De que
modo se pode fazer a prevenção da violência junto dos mais
pequenos?
R. - Impõe-se pensarmos nisso. É de facto uma luta desigual
e algo muito complicado para as famílias. Há coisas que, de facto,
elas não podem evitar.
Por exemplo, pretendem impedir as crianças de ver os "Morangos com
Açúcar", mas só o conseguem uma ou duas vezes, à
terceira vêem mesmo. O que é preciso é que os pais assumam
a sua posição e deixem as crianças, relativamente cedo,
fazer experiências de autonomia. Mas estando junto delas e dizendo sempre:
"Eu acho que"... Uma coisa é proibir, outra é dizer:
"Eu acho que"... Penso que há muitas coisas em relação
às quais, mesmo no caso dos adolescentes, os pais nunca se devem demitir
de dizer o que pensam.
P. - E não devem proibir?
R. - O proibir depende muito das circunstâncias. Às vezes,
é gratuito e vai azedar tudo. Há uma coisa que recomendo aos pais:
falem pouco, não façam grandes discursos. Porque isso se torna
muito desgastante. Arranjem uma frase simples como: "Sabes que se fores
ali, fico preocupado(a)." A criança vai com a sensação
de que vai experimentar uma coisa que preocupa o pai ou a mãe. Tem uma
referência quando se começa a afastar, a de que tem de ter cuidado.
O proibir dá desejo de opor. Acho que os pais nunca se devem demitir
de estar presentes, de ouvir, de dizer o que pensam, de mostrar o que sentem.
Na adolescência, quando os miúdos começam a crescer, é
importante ter muito claro qual é o objectivo principal. E eu penso que
é conservar com eles uma boa relação, de abertura. Se há
uma boa relação, se se mantém a proximidade, pode haver
uma coisa que correu mal mas tudo se reconstrói. Agora, quando o pai
sistematicamente é o lobo e nunca aparece como uma figura benéfica
que depois resolve o problema, é muito mais complicado. Quando há
qualquer coisa que correu mal e o miúdo ficou aflito e o pai ainda se
zangou com ele, se surgir um novo problema, ele fará tudo para que o
pai não saiba. Quando o pai ajuda um filho numa situação
difícil, não é obrigado a dizer que aquilo não tem
importância. O que interessa é mostrar à criança
que, apesar do que aconteceu, pode contar com ele.
P. - Falando sempre na perspectiva da prevenção da violência,
qual é a melhor atitude no caso das crianças mais pequeninas?
R. - Uma das coisas que, desde o princípio se deve fazer, é
ensinar-lhes que a violência não pode ser uma coisa gratuita. E
que há coisas que não se fazem porque vão fazer sofrer
os outros. Uma das coisas mais assustadoras é quando a violência
é excessiva e desmotivada.
P. - Os sentimentos de solidariedade, de preocupação com
o outro, são valores que também podem ser transmitidos através
dos contos tradicionais.
R. - Sim, esses contos, de uma maneira um bocado rústica, são
extremamente eficazes.
P. - Hugo Cerda, num trabalho sobre as histórias tradicionais,
atribui aos contos de fadas um papel fortemente negativo na formação
das crianças, já que interiorizam preconceitos que pouco ou nada
têm a ver com a sua cultura e com a época em que vivem.
R. - O que é curioso é que, por exemplo, a história
da Gata Borralheira que tem origem no século VI antes de Cristo, continua
a interessar as crianças hoje. Porque, no fundo, os problemas estruturais
da personalidade mantêm-se nos miúdos.
P. - Então acha que ele não tem razão quando fala
dos preconceitos?
R. - Acho que isso é esquecer que há coisas que evoluíram
e outras que se mantêm, como os problemas típicos do mundo infantil.
A Gata Borralheira, por exemplo, fala da boa e da má mãe, do conflito
com a mãe, da rivalidade fraterna que são problemas universais.
As irmãs são feias e más, ela é linda e vai ter
uma boa mãe, que é a fada madrinha e que vai proporcionar-lhe
a satisfação do seu sonho, que é encontrar um príncipe
encantado com quem vai casar. As meninas, hoje, querem arranjar um homem muito
bonito, casar, querem ser mais bonitas do que as outras... Toda a grande literatura
continua a falar nisso.
P. - O sucesso das telenovelas deve-se à recuperação
do modelo central dos contos infantis?
R. - E das ideias centrais do mundo adolescencial e juvenil, usando incansavelmente
a repetição de situações-tipo, muitas vezes de mau
gosto e isso é uma deseducação.
P. - Sabe-se que as telenovelas têm grande adesão do público
infantil. Porquê?
R. - Uma das coisas típicas das crianças é a curiosidade
enorme pela vida dos adultos e dos mais velhos.
P. - Na base da ideia de que os pormenores violentos serem eliminados
dos contos infantis, não estará também a tentativa de transmitir
e ensinar aos mais pequenos que, afinal, o mundo não é só
a preto e branco mas que também há o cinzento? E que nem sempre
os bons são premiados e os maus castigados?
R. - A capacidade de percepção dessas coisas é própria
de uma idade mais avançada. Só depois entramos numa fase pós
ambivalente em que sabemos que as coisas são relativas, que as pessoas,
quando fazem mal, se calhar têm as suas razões. Se se pretende
ensinar isso às crianças, que se ensine de outra maneira. Há
tantas outras iniciativas em que seria útil esta pedagogia...
P. - Que sugestão faz aos educadores de infância quanto
a esta questão?
R. - Recomendo que, se contam histórias tradicionais, as contem
como elas são. E que oiçam a crianças e as percebam.
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