Educadores de Infância
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Dossiers Temáticos | Sigmund Freud
Entrevista com João Seabra Diniz
Foi director do Serviço de Acção Social da Misericórdia de Lisboa e coordenador do Projecto de Apoio à Família e à Criança.Desenvolveu trabalho na área da adopção
Autor do livro "Este meu filho que eu não tive", editado pela Afrontamento

Não podemos apresentar às crianças um mundo sem violência

O mundo infantil é, normalmente, muito perturbado, muito agitado

Não é através da eliminação dos conteúdos violentos dos contos tradicionais infantis que se faz a prevenção da violência na criança, considera João Seabra Diniz. O que é preciso é mostrar aos mais pequenos que há uma maneira de resolver esses problemas. E uma forma de o fazer é contar-lhes, até ao fim, as histórias que têm perdurado através dos tempos, que incluem todos os problemas estruturais da personalidade das crianças, os seus conflitos e a forma de os solucionar. O psicanalista, que trabalha na área da saúde mental infantil, contraria assim a tendência adoptada por alguns educadores que defendem a exclusão de medos, sustos e angústias das histórias tradicionais. Por exemplo, o lobo mau do Capuchinho Vermelho já não come a avozinha, apenas a assusta. Esta tendência chegou também às cantigas infantis. Em algumas creches portuguesas e em discos de música infantil, como os das Músicas da Carochinha, a letra do "Atirei o pau ao gato, mas o gato não morreu", passou a "Atirei o pau ao gato, mas o gato não comeu".

Público - É importante contrariar a ideia favorável à eliminação dos conteúdos violentos das histórias infantis, com vista à prevenção da violência?

João Seabra Diniz - Sim. Claramente, é preciso contrariar essa ideia porque ela parte de um equívoco. O de pensar que o mundo da criança é um mundo pacífico em que não há medos, não há sustos, não há raivas, não há zangas e que isso vem tudo de fora. De facto há muita coisa que vem de fora, mas o próprio mundo da criança é muitas vezes tumultuoso, assustador. As crianças mostram-no, muitas vezes, nas coisas que dizem e imaginam, nas histórias que contam sem ninguém lhes ter contado e que são terríficas.

P. - Está a dizer que as crianças são naturalmente violentas?
R. - O que digo é que o mundo infantil é, normalmente, muito perturbado, muito agitado. É por isso que a criança precisa regularmente e quotidianamente da presença de figuras benéficas que tornem aquele mundo mais estável e compreensível. Por exemplo, quando uma mãe se atrasa para ir buscar o filho à escola, muitas vezes, quando chega, a criança está em pânico porque está a pensar que foi abandonada. As crianças podem entrar em pânico, podem ter movimentos de ira muito violentos. Partindo deste princípio, de que no próprio mundo das crianças existem medos e figuras terríficas, uma das funções parentais importantes é funcionar em uníssono com as crianças para que estes medos possam ser contidos, ser compreendidos e possam evoluir.

P. - Mas concorda com a ideia de que a violência gera violência?
R. - A ideia de que os conteúdos de violência podem ter uma influência nefasta nas crianças é verdade. Os jogos das "playstations", a violência no desporto, algumas imagens que a televisão nos apresenta são evidentemente perturbadoras. Mas quanto às histórias infantis, a situação é diferente porque traduzem uma sabedoria onde são apresentados os conflitos e os dramas do mundo infantil como são vividos pela criança, as consequências que resultam destes conflitos mas depois há uma solução. E aqui é que está a chave do problema.

P. - Defende que os contos tradicionais devem ser contados, em vez de lidos...
R. - Há duas coisas que são fundamentais em relação aos contos tradicionais. Primeiro, contá-los até ao fim porque no fim as coisas resolvem-se. E segundo, contá-los, não mandá-los ler. Uma coisa é uma criança estar entregue a um livro com gravuras extremamente aterrorizadoras, sozinha, outra coisa é ouvir contar uma história de medo ao colo da mãe ou ao colo da avó. Para compreendermos os contos tradicionais, é absolutamente essencial não perdermos de vista que não foram feitos para ser lidos, mas para ser contados e mesmo num contexto em que há várias pessoas. É uma oportunidade, para muitas crianças, de encontrarem os seus conflitos e uma maneira de os resolver.

P. - E de que forma isso se processa?
R. - Por exemplo, no conto "Os três cabelos do Diabo" encontram-se os contextos familiares, as figuras protectoras e a resolução dos problemas. Todas as histórias têm um fim que dá um destino aos conflitos. Um destino prático à medida do dia-a-dia das crianças pequenas.
Lembro-me de que uma vez estava a falar com uma senhora a quem disse que a história do Capuchinho Vermelho era benéfica. Ela não concordou porque todas as noites a contava à filha e ela ficava numa ansiedade brutal. E então eu perguntei-lhe como é que acabava a história. Na história, a menina recebe uma ordem: "Vais levar isto à avó mas não sais do caminho." E a criança cede à tentação e desobedece, que é uma coisa que acontece a todas as crianças. Têm o desejo de desobedecer, de fazer o que os pais não deixam e depois o medo do que vai acontecer, o sentimento de culpa. E acontece uma coisa terrível. O lobo come a avó e a menina. E esta senhora acabava a história aqui. A criança ficava confrontada com a catástrofe da sua transgressão e sem ninguém para lhe dizer como se saía da situação. Quando a história continua, e vem o caçador, que é figura do pai, abre o lobo, ralha com a menina, tira de lá a avó e resolve o problema. Portanto, há aqui a mediação de uma figura de autoridade, com força e com competência que é capaz de reconstruir a situação.

P. - Quando este final é modificado, quando lhe são retirados os conteúdos mais violentos, substituindo-os por soluções conciliadoras, tais como o lobo que se torna amigo da avó, etc., como agora se começa a fazer, o que acontece?
R. - Está a tirar-se toda a verosimilhança e toda a autenticidade psicológica à história. Porque a violência é violência, os perigos são os perigos, existem. Não podemos apresentar às crianças um mundo onde eles não existem porque esse é um mundo perfeitamente irreal. Temos de lhes dizer que existe a violência, o medo, o perigo, mas há uma maneira de resolver esses problemas.

P. - O principal benefício dos contos infantis é esse caminho para as crianças descobrirem a solução daquilo que as inquieta...
R. - Exactamente, é um caminho. O próprio contar da história é uma espécie de sessão de terapia. Há períodos da vida da criança em que ela tem um especial interesse por determinada história. Tem de ouvir todos os dias aquela história. Ela sabe-a de cor e se o adulto altera qualquer pormenor, ela diz que não é assim...

P. - E por que é que não quer que o final seja modificado?
R. - Porque justamente o que lhe interessa é reviver aquela situação, o medo, o susto e depois a solução. Uma vez um jovem pai disse-me que não devia ser sempre assim e dizia que, todas as noites, a filha queria que ele lhe contasse a história do Capuchinho Vermelho, mesmo depois de a mãe já lha ter contado, e se isso não acontecesse, ela não dormia. Ele queria saber porquê. E eu respondi-lhe: "Por uma questão muito simples, porque tu estás no lugar do lobo e ela olha para ti como um perigo." E ele abriu os olhos muito espantado e disse: "Então é por isso que todas as noites ela diz: "O pai não come a Rita, pois não?"" O pai dizia que não e ela então adormecia tranquila, precisava de reviver aquela situação. É uma dinâmica relacional complexa que é benéfica se bem feita.

P. - O problema é que muita gente não respeita esse modo de contar as histórias.
R. - O problema é que as pessoas não têm uma compreensão profunda do significado deste processo e tentam atenuar as coisas...

P. - Não recomenda portanto a prática que parece estar a ser seguida por alguns educadores de infância e em certos jardins-escola de eliminar os conteúdos violentos dos contos infantis?
R. - Não recomendo de maneira nenhuma. Lembro-me de fazer sessões precisamente sobre isso na Escola Superior de Educação de Lisboa, com escritores infantis, dando exemplos e se isso voltou para trás é uma pena... mas acho que o que se está a fazer hoje com crianças perde de vista, muitas vezes, uma perspectiva correcta.

P. - Esta ideia vinga, em certos meios, em nome da prevenção da violência. Visto que há uma luta desigual entre a família, que quer proteger a criança, e a sociedade de consumo, que lança os mais diversos e atractivos apelos no que respeita a estilos de vida. De que modo se pode fazer a prevenção da violência junto dos mais pequenos?
R. - Impõe-se pensarmos nisso. É de facto uma luta desigual e algo muito complicado para as famílias. Há coisas que, de facto, elas não podem evitar.
Por exemplo, pretendem impedir as crianças de ver os "Morangos com Açúcar", mas só o conseguem uma ou duas vezes, à terceira vêem mesmo. O que é preciso é que os pais assumam a sua posição e deixem as crianças, relativamente cedo, fazer experiências de autonomia. Mas estando junto delas e dizendo sempre: "Eu acho que"... Uma coisa é proibir, outra é dizer: "Eu acho que"... Penso que há muitas coisas em relação às quais, mesmo no caso dos adolescentes, os pais nunca se devem demitir de dizer o que pensam.

P. - E não devem proibir?
R. - O proibir depende muito das circunstâncias. Às vezes, é gratuito e vai azedar tudo. Há uma coisa que recomendo aos pais: falem pouco, não façam grandes discursos. Porque isso se torna muito desgastante. Arranjem uma frase simples como: "Sabes que se fores ali, fico preocupado(a)." A criança vai com a sensação de que vai experimentar uma coisa que preocupa o pai ou a mãe. Tem uma referência quando se começa a afastar, a de que tem de ter cuidado. O proibir dá desejo de opor. Acho que os pais nunca se devem demitir de estar presentes, de ouvir, de dizer o que pensam, de mostrar o que sentem.

Na adolescência, quando os miúdos começam a crescer, é importante ter muito claro qual é o objectivo principal. E eu penso que é conservar com eles uma boa relação, de abertura. Se há uma boa relação, se se mantém a proximidade, pode haver uma coisa que correu mal mas tudo se reconstrói. Agora, quando o pai sistematicamente é o lobo e nunca aparece como uma figura benéfica que depois resolve o problema, é muito mais complicado. Quando há qualquer coisa que correu mal e o miúdo ficou aflito e o pai ainda se zangou com ele, se surgir um novo problema, ele fará tudo para que o pai não saiba. Quando o pai ajuda um filho numa situação difícil, não é obrigado a dizer que aquilo não tem importância. O que interessa é mostrar à criança que, apesar do que aconteceu, pode contar com ele.

P. - Falando sempre na perspectiva da prevenção da violência, qual é a melhor atitude no caso das crianças mais pequeninas?
R. - Uma das coisas que, desde o princípio se deve fazer, é ensinar-lhes que a violência não pode ser uma coisa gratuita. E que há coisas que não se fazem porque vão fazer sofrer os outros. Uma das coisas mais assustadoras é quando a violência é excessiva e desmotivada.

P. - Os sentimentos de solidariedade, de preocupação com o outro, são valores que também podem ser transmitidos através dos contos tradicionais.
R. - Sim, esses contos, de uma maneira um bocado rústica, são extremamente eficazes.

P. - Hugo Cerda, num trabalho sobre as histórias tradicionais, atribui aos contos de fadas um papel fortemente negativo na formação das crianças, já que interiorizam preconceitos que pouco ou nada têm a ver com a sua cultura e com a época em que vivem.
R. - O que é curioso é que, por exemplo, a história da Gata Borralheira que tem origem no século VI antes de Cristo, continua a interessar as crianças hoje. Porque, no fundo, os problemas estruturais da personalidade mantêm-se nos miúdos.

P. - Então acha que ele não tem razão quando fala dos preconceitos?
R. - Acho que isso é esquecer que há coisas que evoluíram e outras que se mantêm, como os problemas típicos do mundo infantil. A Gata Borralheira, por exemplo, fala da boa e da má mãe, do conflito com a mãe, da rivalidade fraterna que são problemas universais. As irmãs são feias e más, ela é linda e vai ter uma boa mãe, que é a fada madrinha e que vai proporcionar-lhe a satisfação do seu sonho, que é encontrar um príncipe encantado com quem vai casar. As meninas, hoje, querem arranjar um homem muito bonito, casar, querem ser mais bonitas do que as outras... Toda a grande literatura continua a falar nisso.

P. - O sucesso das telenovelas deve-se à recuperação do modelo central dos contos infantis?
R. - E das ideias centrais do mundo adolescencial e juvenil, usando incansavelmente a repetição de situações-tipo, muitas vezes de mau gosto e isso é uma deseducação.

P. - Sabe-se que as telenovelas têm grande adesão do público infantil. Porquê?
R. - Uma das coisas típicas das crianças é a curiosidade enorme pela vida dos adultos e dos mais velhos.

P. - Na base da ideia de que os pormenores violentos serem eliminados dos contos infantis, não estará também a tentativa de transmitir e ensinar aos mais pequenos que, afinal, o mundo não é só a preto e branco mas que também há o cinzento? E que nem sempre os bons são premiados e os maus castigados?
R. - A capacidade de percepção dessas coisas é própria de uma idade mais avançada. Só depois entramos numa fase pós ambivalente em que sabemos que as coisas são relativas, que as pessoas, quando fazem mal, se calhar têm as suas razões. Se se pretende ensinar isso às crianças, que se ensine de outra maneira. Há tantas outras iniciativas em que seria útil esta pedagogia...

P. - Que sugestão faz aos educadores de infância quanto a esta questão?
R. - Recomendo que, se contam histórias tradicionais, as contem como elas são. E que oiçam a crianças e as percebam.

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