| Aos 88 anos, a escultora vienense Margarethe Walter tem ainda intacta a memória
do homem que lhe "salvou a vida", em 1936. Na altura ela tinha 18 anos,
sofria de bronquite e, sobretudo, de um "grande mal da alma". O médico
decidiu mandá- -la então ao especialista mais famoso - e polémico
- da época, que tinha o consultório no 19 da Rua Berggasse, em Viena.
O especialista chamava-se Sigmund Freud, e "curou-a" em 45 minutos.
Margarethe é a última paciente ainda viva do "pai da psicanálise"
e acedeu agora pela primeira vez a contar publicamente a sua história
ao semanário alemão Die Zeit, que a procurou e entrevistou. Uma
forma original de comemorar os 150 anos do nascimento de Freud, que se cumprem
no próximo domingo.
"Sigmund Freud foi a única pessoa que verdadeiramente me escutou",
garante a escultora, que vivia subjugada por um pai autoritário. "Freud
é a chave da minha vida. (...) Abriu em mim uma porta que ninguém
tinha querido abrir antes", conta Margarethe ao Die Zeit, sublinhando ter
"saboreado tudo" o que Freud lhe transmitiu. " Essa fonte de
alimentação da alma nunca se esgotou em 70 anos. Salvou-me a vida."
Nesse ano de 1936 do século passado, Freud estava já na recta
final da sua vida. Morreria três anos depois, já no exílio,
em Londres, logo após o início da II Guerra Mundial.
Para trás ficava uma vida de trabalho original sobre a mente humana,
que o médico de Viena foi sempre reelaborando e transformando, e que
acabou por revolucionar a história do pensamento, repercutindo-se até
hoje nas ciências, nas artes e na cultura.
Da linguagem comum à literatura, das manifestações artísticas
às correntes filosóficas, os conceitos psicanalíticos são
hoje indissociáveis da cultura ocidental, ainda que muitos dos seus agentes
o rejeitem com fúria, ou o senso comum lhes deturpe o significado, ao
sabor dos pequenos conflitos quotidianos.
Mas, nesse ano distante de 1936, Margarethe Walter ainda não podia saber
nada disto. Sabia, isso sim, que se sentia só, "muito oprimida,
fechada e certamente não amada". Vivia então com o pai, "muito
autoritário", de quem era "completamente dependente".
O seu encontro com Freud, embora curto, foi libertador. Margerethe recorda
"um homem muito velho, mas cheio de força". Tinha "uma
pequena barba branca, um fato cinzento e estava um pouco curvado".
O relato da escultora prossegue, sempre vívido. "Olhou-me de frente
nos olhos, profundamente." Depois encorajou-a a desligar-se do pai, que
a acompanhava nessa consulta, e a quem ele próprio pediu na ocasião
para "sair da sala".
Freud disse então as palavras mágicas, segundo a sua última
paciente viva: "Para se chegar a adulto é preciso atender aos desejos,
alimentar a contradição, colocar a questão do 'porquê',
não aceitar tudo em silêncio". A julgar pela memória
que guarda desse encontro decisivo, Margarethe deve ter seguido o conselho.
Mas não conta como o fez.
DN 30-04-06
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