São poucas, mas cada vez mais, as famílias portuguesas que optam
por educar os seus filhos em casa, sobretudo nos primeiros anos de idade. De
acordo com um levantamento feito pela Direcção Regional de Educação
de Lisboa (DREL), no presente ano lectivo pelo menos 63 alunos estão
inscritos no chamado ensino doméstico, a que se juntam 11 que frequentam
o ensino individual - a criança tem aulas noutro espaço que não
a escola, com um máximo de mais três colegas.
Se a estes se somarem as situações que o PÚBLICO apurou
existirem noutras regiões do país, mas para as quais não
conseguiu obter dados oficiais, e ainda os casos de famílias que optaram
por ensinar os filhos em casa mas seguindo outros currículos que não
o oficial, o número de crianças que frequentam o ensino doméstico
e individual em Portugal poderá chegar a uma centena.
Os dados da DREL revelam ainda que esta é uma modalidade que, pelas
mais diversas razões, tem vindo a ganhar adeptos. "Este interesse
tem sido revelado através dos vários pedidos de esclarecimento
acerca da matéria e através de pedidos de passagem dos alunos
do 1.º ciclo do ensino básico da modalidade de ensino presencial
(integrado em turma regular) para a modalidade de ensino doméstico",
explica-se numa nota informativa desta direcção regional.
Assim, se em 2004/2005 havia 47 crianças inscritas no ensino doméstico
e no ano seguinte 48, actualmente são mais de seis dezenas.
"Quando solicitei a transferência do meu filho, disseram-me na
direcção regional do Alentejo que este ano tinha havido um aumento
visível dos pedidos", confirma Clara Guiomar, que decidiu retirar
o filho da escola em Outubro passado.
A maioria dos alunos identificados pela DREL - a opção pelo
ensino doméstico obriga à matrícula numa escola pública
- estão inscritos no 1.º, 2.º e 4.º anos de escolaridade.
Sendo que nos dois últimos anos lectivos nenhum chumbou.
Em casa, ensina-se o que se quiser e como se quiser. Mas há regras
a cumprir. É preciso comunicar qual a pessoa responsável pelo
percurso escolar do aluno. No caso do ensino doméstico poderá
ser o encarregado de educação, um parente até ao 3.º
grau, um tutor ou pessoas que vivam dentro da mesma economia familiar. Todos
os trimestres, o responsável tem de entregar na escola relatórios
sobre a evolução do aluno e, no final dos ciclos de estudo (4.º,
6.º e 9.º anos), a criança tem de prestar provas.
"A mãe pode ensinar"
Depois de muita informação lida e trocas de ideias com outras
famílias que optaram pelo ensino doméstico, Lara Dias, 37 anos,
e o marido tomaram a decisão. No próximo ano lectivo, a filha
Catarina, cinco anos, não irá para a escola e ficará em
casa a aprender com a mãe. "É claro que me assusta um bocadinho.
É uma experiência nova", admite. Lara tem consciência
de que esta não é uma opção para toda a gente. Como
tradutora, acredita que conseguirá conciliar a profissão e o ensino
da filha. Acha que até ao 4.º ano não será difícil.
"A partir do 2.º ciclo já tenho algumas dúvidas de que
seremos capazes."
Em princípio também não será Catarina a levantar
problemas. "Foi ela a primeira a falar em ensino doméstico. Aos
três anos, quando foi para o infantário disse que não percebia
por que tinha de ir à escola.
"A mãe sabe ler e escrever e pode ensinar.""
Sobre as vantagens do ensino doméstico, Lara coloca à frente da
lista o facto de permitir um ensino "mais personalizado, que permite uma
aprendizagem melhor, na medida em que cada criança é diferente".
Calcular doses de doce
A integração de Leonardo na turma do 1.º ano estava a ser
difícil e tornou-se mais complicada depois de a professora o ter colocado
isolado numa mesa ao fundo da sala, ao contrário dos colegas que trabalhavam
em grupo. Foi uma espécie de pretexto decisivo para Carla, 33 anos, e
o marido, porem em prática alguns dos princípios que defendem
e pedirem a transferência do filho, seis anos, para o ensino doméstico.
"O problema é que a escola, massificada e industrializada, não
responde às necessidades individuais das pessoas e vai destruindo a curiosidade
e o gosto pela aprendizagem que todas as crianças têm naturalmente",
justifica Carla, ex-professora no ensino oficial.
Críticos da "compartimentação dos horários
escolares, do tempo excessivo que as crianças passam em actividades dirigidas,
sem tempo para brincar e aprender ao seu ritmo", o casal de Vila Nova de
Santo André, Santiago do Cacém, adoptou uma estratégia
de ensino completamente diferente.
"Não há escola em casa", diz Carla. Ou seja, não
há horários pré-definidos, rotinas estabeleidas, e o ensino
tanto pode acontecer ao pequeno-almoço, dividindo torradas e calculando
quantas doses de doce de amora cabe a cada um, como num contexto mais tradicional,
com o livro de exercícios à frente.
Sobre a questão da socialização, um dos argumentos contra
o ensino doméstico ouvidos mais frequentemente, Carla diz que é
uma "falsa questão". "A socialização faz-se
mais no contacto que ele tem com a comunidade do que na sala de aula, em que
há sobretudo uma formatação à instituição."
"A adaptação do Leonardo foi imediata e agora está
muito mais feliz", assegura a mãe.
Qualidade do desenvolvimento pode ser afectada
Mais do que a parte pedagógica, eventualmente mais "fácil
de assegurar", é o impacto na qualidade do desenvolvimento da criança
que Paula Cristina, psicóloga e vice-presidente do Instituto de Estudos
da Criança da Universidade do Minho, considera poder ser prejudicial
no ensino doméstico.
"Esta opção diminui o número de relações,
a diversidade de actividades e o tipo de papéis sociais que a criança
desempenha. O que a investigação nos diz é que a qualidade
do desenvolvimento das crianças está relacionada com a qualidade
e diversidade dos contextos em que participa", sustenta, sublinhado que
a escola é um espaço fundamental de socialização.
"Ao aprender em casa, a criança deixa de ser aluno e colega e é
quase sempre filho. Não contacta com pessoas que desempenham diferentes
papéis sociais, o que é profundamente limitador do seu desenvolvimento
social." Admitindo que o ensino doméstico possa ser uma opção
adequada nalguns casos - crianças com condições particulares
de saúde ou sem estabilidade na escola -, Paula Cristina acredita que
as famílias que fazem esta opção estão muitas vezes
a privilegiar o desenvolvimento intelectual e afectivo das crianças.
"Acham que o filhos aprendem mais assim do que na escola e, nalguns casos,
até pode ser verdade. Mas perdem outras dimensões, que se vão
repercutir na construção da sua personalidade e no desenvolvimento
de tarefas desenvolvimentais, como a gestão de conflitos, a partilha,
o entender-se a si próprio na relação com os outros."
O problema, acrescenta, tem também a ver com a sociedade que se quer
construir. "Queremos que seja integradora e cooperante ou uma sociedade
em que cada um investe no seu metro quadrado?", interroga. I.L.
Isabel Leiria Público 08.04.2007
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