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Ensino em quadros interactivos

 

Com o microfone preso na cabeça, tipo bandolete, a professora vai dando a aula. Em vez do quadro de lousa, tem um interactivo, uma espécie de monitor de computador gigante. Com a ponta de uma caneta, abre um ficheiro de onde tira um exercício de matemática. "3+2", pergunta. De comando na mão, os alunos carregam na resposta. Imediatamente a professora sabe quem acertou e quem errou.
A professora é uma demonstradora de uma empresa de conteúdos tecnológicos e os alunos são professores e directores de escolas britânicas, interessados na compra daquele tipo de equipamento. O espaço é o do centro de exposições Olympia, no centro de Londres. Trata-se da Bett Show, uma feira anual de programas e conteúdos tecnológicos aplicados à educação, que terminou no passado dia 14.
O Governo inglês está a apostar fortemente na aplicação das novas tecnologias às escolas. Depois dos computadores - 99 por cento das escolas primárias e secundárias estão ligadas à Internet -, o Ministério da Educação está a financiar a aquisição de quadros interactivos.
Actualmente, 63 por cento das escolas de 1.º ciclo têm, em média, dois quadros interactivos. No ensino secundário, nove em cada dez estabelecimentos de ensino têm sete quadros. O ministério continua a investir e para o ano lectivo de 2004-2005 disponibilizou cerca de 14 milhões de euros para equipar as secundárias com quadros multimédia.
Além do equipamento, o Governo dá ainda dinheiro às escolas para gastar na compra de "software", ou seja, na aquisição de recursos multimédia para usar nesses quadros ou noutros equipamentos. Ao todo, o ministério disponibilizou 475 milhões de euros para jardins-de-infâncias e escolas gastarem, o que dá cerca de 1500 euros por cada estabelecimento de ensino. Se o valor não for gasto no prazo de um ano, o ministério recolhe-o e distribui por outras áreas.
Na feira, em Londres, a oferta é imensa, há mais de 600 expositores, editoras e produtoras de conteúdos que pretendem vender os seus produtos, a grande maioria pode ser aplicado no ambiente de sala de aula. Há programas para todos os anos - do pré-escolar ao secundário, passando pelas turmas com necessidades educativas especiais -. e para todas as disciplinas, inclusive para o ensino da Educação Musical.
Por isso, o ministério inglês criou uma certificação - só os materiais que têm o selo de garantia do Governo é que podem ser comprados com o dinheiro dado às escolas. Em caso de dúvida, os professores podem consultar os especialistas do ministério.
Professores não devem sentir-se ameaçados
No "stand" da Granada, uma cadeia de televisão que, tal como a BBC, está a produzir conteúdos para as escolas, uma promotora explica a uma educadora de infância como se pode usar um programa de Matemática, pensado para crianças com quatro anos.
No quadro interactivo estão uma dezena de ursos coloridos, o objectivo é criar conjuntos, separando-os por cores. Assumindo o papel da criança, a educadora vai deslocando os ursos, tocando com o dedo no ecrã, para o círculo correspondente a cada cor.
Usar as tecnologias de informação e comunicação tem de fazer parte do trabalho de educadores e professores, diz Clare Johnson, responsável do departamento de Educação e Competências do ministério. "A chave da mudança na educação está no uso que se dá às tecnologias", reforça, durante um seminário, no dia de abertura da exposição.
Os docentes não se devem deixar deslumbrar ou, pelo contrário, sentir-se ameaçados pelo uso das novas tecnologias, acrescenta. "A pergunta que o professor deve fazer é: como é que o uso desta tecnologia vai tornar mais eficaz a aprendizagem?", recomenda Clare Johnson.
Os quadros interactivos podem trazer alterações ao modo como se ensina. Por isso, além da formação, os professores devem juntar-se e conversar entre si sobre o melhor modo de utilizar as novas tecnologias.
Os docentes não devem ainda esquecer que as tecnologias são "ferramentas essenciais para aprender". Se se ensinar bem, os estudantes vão saber aplicá-las em qualquer situação: para pesquisar na Internet, para resolver um problema ou para apresentar um trabalho de grupo, conclui. Bárbara Wong viajou a convite da Porto Editora
O que existe em Portugal
Os quadros interactivos podem ser encontrados em algumas universidades. No ensino não superior há pouca coisa, reconhece o Ministério da Educação, que pretende apresentar um projecto-piloto para aplicação das tecnologias de informação e comunicação nas salas de aula.
Recentemente, a empresa canadiana Smart Technologies ofereceu sete quadros interactivos a escolas públicas, cinco do continente e duas nas ilhas. No final do ano, a Areal Editores começou a comercializar este tipo de equipamento.
A secundária Fontes Pereira de Melo, no Porto, foi uma das contempladas com o quadro da Smart Technologies. A escola já tinha três quadros que são usados sobretudo nas aulas de Informática e no Laboratório de Línguas, explica Pedro Almeida, assessor do conselho executivo, no estabelecimento de ensino.
Para este professor, o quadro interactivo não substitui o quadro tradicional, porque o primeiro não deve ter uma utilização excessiva, como tem o de lousa ou o quadro branco. O equipamento multimédia é mais indicado para acções de formação ou reuniões, considera.
Na EB 2/3 Bartolomeu Perestrelo, na Madeira, o quadro será usado só em circunstâncias especiais, já que vai ser montado no anfiteatro da escola.
A Areal Editores defende o uso em sala de aula. "É fácil de usar. Quem sabe trabalhar com um computador sabe trabalhar com este quadro", explica Carlos Almeida, administrador da editora que começou a vender este equipamento, cujo custo "anda à volta do preço de um computador portátil".
Manuel Ferrão, presidente da Texto Editora, refere que este equipamento fica mais barato que uma sala cheia de computadores e que tem mais potencialidades, pois permite, por exemplo, usar conteúdos que as principais editoras têm disponíveis na
Editora portuguesa lança Escola Virtual Internet
Ensinar de "forma eficaz e motivadora" através do computador. É esta a intenção da Porto Editora, que apresenta na terça-feira, em Lisboa, o projecto da Escola Virtual.
A partir de uma página da Internet ou de um CD-Rom, os alunos de 9.º e 12.º ano podem estudar ou preparar-se para os exames. A Escola Virtual é uma plataforma de ensino personalizado com os conteúdos programáticos de várias disciplinas. Os alunos podem aceder através da Internet ou da compra de um CD-Rom e ter aulas dinâmicas, aprender a matéria e resolver exercícios.
"Este é um paradigma novo que promove a automotivação. O aluno chega a casa, liga o computador e estuda de maneira lúdica", define Vasco Teixeira, director editorial. Com este acesso, os estudantes vão aprender mais facilmente e vão precisar menos de recorrer a explicações ou a livros de exercícios. "É mais económico", garante.
O acesso à Internet tem o custo de 9,90 euros por disciplina e pode ser usado durante todo o ano lectivo e cada CD-Rom custa 19,99 euros.
Trata-se de um novo modelo de aprendizagem, acrescenta Rui Pacheco, director do centro multimédia da Porto Editora e coordenador do projecto. A sua equipa pegou nos programas de Português e Matemática do 9.º e 12.º e na Biologia, Física e Química de 12.º ano e transformou-os em conteúdos interactivos, com filmes, animações, experiências virtuais e exercícios. O aluno pode interagir com o programa.
Até 2007, a Porto Editora pretende criar conteúdos para todos os anos, do 1.º ao 12.º, a todas as disciplinas.
A primeira parte do projecto destina-se aos alunos. Mas, a médio prazo, a Porto Editora gostaria de estender a experiência da Escola Virtual aos estabelecimentos de ensino e aplicar os novos conteúdos em contexto de sala de aula. Para tal são necessários novos equipamentos, como os quadros interactivos. Mas a utilização de "software" na escola ou na sala de aula não vai substituir o manual escolar, antes vai ser um complemento.
Vasco Teixeira lamenta que Portugal esteja "tão atrasado" e conta que, na exposição londrina, encontrou ministros da Educação de países de Leste e asiáticos. "Conhecerá a senhora ministra a existência desta feira?", pergunta. "O que nos faz pena é que as entidades sejam pouco sensíveis a estas coisas", conclui.

BÁRBARA WONG - Público 22-01-05